Um mês inteiro para falar do que costuma ser silenciado
Falar sobre suicídio é difícil. Para muitas pessoas, o tema carrega medo, culpa e um silêncio que atravessa gerações. Mas é justamente esse silêncio que o Setembro Amarelo existe para romper: quando o sofrimento pode ser nomeado, ele pode ser acolhido — e quando é acolhido, pode ser tratado.
Se você está passando por um momento de crise, não precisa atravessar isso em silêncio: o CVV (Centro de Valorização da Vida) atende de forma gratuita e sigilosa pelo telefone 188, 24 horas por dia, todos os dias, e também pelo chat em cvv.org.br. Em situações de emergência, ligue para o SAMU (192) ou procure o CAPS ou o pronto-socorro mais próximo.
Este guia reúne, em um só lugar, o essencial sobre o Setembro Amarelo 2026: o que é a campanha, por que falar sobre suicídio previne (e não provoca), quais sinais de alerta merecem atenção, como ajudar alguém que está sofrendo e onde buscar apoio no Brasil — incluindo recursos gratuitos.
Uma mensagem atravessa cada seção deste artigo: crises são temporárias, o sofrimento tem tratamento e pedir ajuda é um ato de coragem, não de fraqueza.
O que é o Setembro Amarelo e por que ele existe
O Setembro Amarelo é a maior campanha brasileira de conscientização sobre a prevenção ao suicídio. Criada em 2015 pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM) e o CVV, a campanha se organiza em torno do dia 10 de setembro — o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio — e se estende por todo o mês.
A cor amarela remete à valorização da vida e à ideia de que sempre há caminhos possíveis, mesmo quando a dor parece não ter saída. Ao longo dos anos, o laço amarelo se tornou um símbolo de que falar sobre saúde mental é legítimo, necessário e pode salvar vidas.
A dimensão do tema justifica a campanha. Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de 700 mil pessoas morrem por suicídio a cada ano no mundo — e cada uma dessas mortes afeta profundamente famílias, amigos e comunidades inteiras (World Health Organization, 2022). O dado mais importante, porém, é outro: a imensa maioria dessas mortes poderia ser evitada com acesso a cuidado, acolhimento e tratamento adequado.
Vale registrar também a forma de falar sobre o tema: a linguagem recomendada é "morreu por suicídio" — e não "cometeu suicídio", expressão que associa a morte a crime ou pecado e reforça o estigma que afasta as pessoas da ajuda.
Falar sobre suicídio previne — o silêncio, não
Muitas pessoas acreditam que perguntar sobre suicídio pode "colocar a ideia na cabeça" de alguém. A realidade é o oposto: perguntar com respeito e sem julgamento alivia, porque permite que a pessoa fale de um sofrimento que já existe e que, até então, estava sendo carregado sozinha.
Essa é uma das orientações centrais das diretrizes internacionais de comunicação segura sobre o tema. Na prática, uma conversa cuidadosa sobre suicídio segue alguns princípios:
- Perguntar diretamente, com calma: "Você tem pensado em tirar a própria vida?" é uma pergunta que demonstra que você aguenta ouvir a resposta.
- Ouvir sem julgar: frases como "isso é bobagem" ou "tem gente pior" invalidam a dor e fecham a porta do diálogo.
- Não tratar o suicídio como solução ou saída: ele é a expressão de uma dor que precisa de cuidado — e essa dor pode diminuir com tratamento.
- Não descrever métodos nem detalhes: falar do sofrimento ajuda; detalhar meios, não.
- Oferecer esperança realista: crises são temporárias, e o desejo de morrer costuma refletir o desejo de que a dor termine — não a vida.
Se a comunicação segura previne, o estigma faz o contrário: quem teme ser julgado esconde o que sente, e o sofrimento cresce no escuro. Por isso o Setembro Amarelo insiste em normalizar a conversa sobre saúde mental o ano inteiro, não apenas em setembro.
Sinais de alerta que merecem atenção
Nem sempre a pessoa que está em sofrimento intenso consegue pedir ajuda com palavras. Muitas vezes, o pedido aparece em mudanças de comportamento. Alguns sinais que merecem atenção incluem:
- Falas diretas ou indiretas sobre morte: "queria sumir", "queria dormir e não acordar", "vocês ficariam melhor sem mim".
- Isolamento progressivo: afastamento de amigos, família e atividades que antes davam prazer.
- Desesperança persistente: a sensação verbalizada de que nada vai melhorar e de que não há saída.
- Mudanças bruscas de comportamento: irritabilidade intensa, agitação, ou uma calma repentina após um período de grande sofrimento.
- Despedidas e doações: entregar objetos queridos, organizar pendências, despedir-se de forma incomum.
- Aumento do uso de álcool ou outras substâncias: frequentemente uma tentativa de anestesiar a dor.
- Descuido com o próprio cuidado: sono, alimentação, higiene e saúde deixados de lado.
Nenhum desses sinais, isoladamente, confirma risco — e a ausência deles não o descarta. O que eles indicam é a necessidade de aproximação, conversa e, quando o sofrimento é intenso ou persistente, avaliação profissional. Em caso de risco imediato, o caminho é acionar ajuda agora: CVV (188), SAMU (192), CAPS ou emergência hospitalar.
Fatores de risco e fatores de proteção
O suicídio é um fenômeno complexo, resultado da interação de múltiplos fatores — nunca de uma causa única. Compreender isso ajuda a abandonar leituras simplistas e culpabilizantes.
Entre os fatores de risco mais estudados estão condições de saúde mental não tratadas (como depressão, transtorno bipolar e dependência de álcool e outras drogas), tentativas anteriores, perdas significativas recentes, dor crônica, isolamento social e histórico de violência ou abuso (World Health Organization, 2022).
Já os fatores de proteção apontam o caminho da prevenção:
- Vínculos afetivos de qualidade: sentir-se parte de uma rede de pessoas que se importam.
- Acesso a cuidado em saúde mental: psicoterapia e, quando indicado, acompanhamento psiquiátrico.
- Espaços onde é possível falar: família, amizades, comunidades e grupos que acolhem sem julgar.
- Sentido e propósito: projetos, valores e pertencimentos que sustentam a vida cotidiana.
- Habilidades de enfrentamento: recursos internos para atravessar crises, que podem ser desenvolvidos, inclusive, em terapia.
A prevenção, portanto, não é um gesto único: é uma teia de cuidados que envolve pessoas próximas, profissionais e políticas públicas.
Como ajudar alguém que está sofrendo
Se você percebe que alguém próximo apresenta sinais de sofrimento intenso, sua presença pode fazer diferença real. Alguns passos práticos:
- Aproxime-se em um momento tranquilo e demonstre que você percebeu: "Tenho notado que você não anda bem. Quer me contar como está se sentindo?"
- Pergunte sobre suicídio com clareza e calma, se houver sinais. A pergunta direta, feita com cuidado, alivia — não induz.
- Ouça mais do que fale. Valide o sofrimento sem minimizar, sem sermões e sem soluções apressadas.
- Ajude a construir uma ponte para o cuidado profissional: oferecer-se para pesquisar um psicólogo, acompanhar até o CAPS ou estar junto durante uma ligação para o CVV (188).
- Em risco imediato, não deixe a pessoa sozinha e acione ajuda: SAMU (192) ou o serviço de emergência mais próximo.
Ajudar não significa carregar tudo sozinho. Quem apoia também precisa de rede e, muitas vezes, do próprio espaço de cuidado — inclusive terapêutico.
Onde buscar ajuda no Brasil
O Brasil conta com uma rede de apoio que combina serviços gratuitos e atendimento particular. Os principais pontos de acesso são:
- CVV — Centro de Valorização da Vida: apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188 (24 horas, todos os dias), pelo chat em cvv.org.br e por e-mail. É o principal serviço de escuta em crise do país.
- CAPS (Centros de Atenção Psicossocial): serviços públicos do SUS especializados em saúde mental, com equipes multiprofissionais. Procure a unidade da sua cidade.
- UBS (Unidades Básicas de Saúde): porta de entrada do SUS, com possibilidade de encaminhamento para atendimento psicológico e psiquiátrico.
- SAMU (192) e emergências hospitalares: para situações de risco imediato à vida.
- Clínicas-escola de psicologia: universidades oferecem atendimento gratuito ou a valores sociais, conduzido por estagiários supervisionados.
- Psicoterapia particular, presencial ou online: acompanhamento contínuo com psicólogo, regulamentado no formato online pela Resolução CFP nº 11/2018.
Buscar ajuda não é o último recurso — é o primeiro passo. E não é preciso estar em crise para começar: o cuidado contínuo com a saúde mental é, em si, prevenção.
Como a Gestalt-terapia compreende o sofrimento e a prevenção
A Gestalt-terapia compreende o sofrimento humano sempre em relação: a pessoa não adoece isolada, mas no campo organismo-ambiente — na trama entre sua história, seus vínculos e seu contexto atual. Quando esse campo se empobrece, com isolamento, perdas e experiências que ficaram sem conclusão (o que a abordagem chama de negócio inacabado, ou "sentimentos por terminar"), a vida pode perder cor e sentido.
O trabalho terapêutico gestáltico caminha na direção contrária a esse empobrecimento. Através do aumento da awareness (consciência plena), a pessoa vai reconhecendo o que sente, do que precisa e o que ficou interrompido em sua experiência. O foco no aqui-agora (momento presente) ajuda a sair do circuito de desesperança sobre o futuro e a reencontrar apoios concretos disponíveis hoje.
E há um elemento central para a prevenção: o contato — a relação genuína entre terapeuta e paciente. Para quem carrega um sofrimento que nunca pôde ser dito, a experiência de ser ouvido sem julgamento, sessão após sessão, pode ser em si transformadora. É nesse encontro que a dor deixa de ser segredo e passa a ser algo que se pode olhar junto, com cuidado e no ritmo possível (Perls, Hefferline & Goodman, 1951; Yontef, 1993).
O papel da psicoterapia na prevenção
A psicoterapia é um dos pilares da prevenção ao suicídio porque atua antes, durante e depois das crises. Antes, fortalecendo recursos de enfrentamento e tratando condições como a depressão — para muitas pessoas, o tratamento psicológico reduz significativamente os sintomas depressivos, como indicam meta-análises na área (Cuijpers et al., 2019). Durante, oferecendo acompanhamento próximo e articulado com outros profissionais. Depois, ajudando a elaborar o que aconteceu e a construir uma vida que valha a pena ser vivida.
Importa dizer com honestidade: cada pessoa responde de forma única ao processo terapêutico, e não há garantias de resultados específicos. Mas a direção é consistente — sofrimento acompanhado é diferente de sofrimento solitário. Se você quer entender como esse processo começa, vale conhecer o que esperar da primeira consulta online.
Psicoterapia online na Figura & Fundo
Na Figura & Fundo, acreditamos que o cuidado com a saúde mental precisa ser acessível, ético e humano — em setembro e em todos os meses do ano. Nosso trabalho é orientado pela Gestalt-terapia, com foco no acolhimento da pessoa como um todo, e acontece no formato online, regulamentado pela Resolução CFP nº 11/2018.
Nossos compromissos são claros: valores fixos e transparentes, sem contratos ou amarras financeiras, e liberdade para interromper a qualquer momento — porque sua autonomia é inegociável. E quando o atendimento particular não cabe no momento de vida, orientamos com transparência os caminhos gratuitos: CVV, CAPS, UBS e clínicas-escola.
Importante: a psicoterapia online é um espaço de cuidado contínuo, não um serviço de emergência. Em crise aguda, os canais adequados são o CVV (188), o SAMU (192) e as emergências hospitalares.
Cuidar da vida é um gesto que se renova
O Setembro Amarelo 2026 é um convite — não apenas a vestir amarelo, mas a transformar a forma como falamos de sofrimento no dia a dia. Perguntar como alguém está de verdade, ouvir sem pressa, conhecer os canais de apoio e buscar cuidado para si: cada um desses gestos compõe a prevenção.
Se este artigo deixou uma mensagem, que seja esta: o desejo de que a dor acabe não é o mesmo que o desejo de que a vida acabe. Crises passam, tratamentos funcionam e ninguém precisa atravessar o sofrimento sozinho. O CVV está disponível no 188, o SUS oferece os CAPS, e a psicoterapia — presencial ou online — é um caminho concreto de cuidado.
Falar salva. Ouvir salva. Buscar ajuda salva.
Referências
- World Health Organization. (2022). World Mental Health Report: Transforming Mental Health for All. Geneva: WHO. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240049338
- Cuijpers, P. et al. (2019). Psychotherapy for depression: A meta-analysis of comparative outcome studies. Journal of Affective Disorders, 243, 455-468. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.jad.2018.09.036
- Perls, F., Hefferline, R., & Goodman, P. (1951). Gestalt Therapy: Excitement and Growth in the Human Personality. New York: Julian Press.
- Yontef, G. M. (1993). Awareness, Dialogue, and Process: Essays on Gestalt Therapy. Highland, NY: Gestalt Journal Press.
- Conselho Federal de Psicologia. (2018). Resolução CFP nº 11/2018 — Regulamenta a prestação de serviços psicológicos por meio de tecnologias da informação e comunicação.
Este artigo tem caráter informativo e educacional. As informações apresentadas não substituem avaliação profissional individualizada. Se você apresenta sofrimento intenso ou pensamentos de morte, procure ajuda imediatamente: CVV (188, gratuito e 24h, ou chat em cvv.org.br), CAPS da sua cidade, SAMU (192) ou o pronto-socorro mais próximo.
Se você sente que chegou o momento de cuidar da sua saúde mental com apoio profissional contínuo, entre em contato com a Figura & Fundo. Vamos conversar, com transparência e acolhimento, sobre como podemos caminhar juntos.
Perguntas Frequentes
Quando começa o Setembro Amarelo 2026 e qual é o tema central da campanha?
O Setembro Amarelo 2026 acontece durante todo o mês de setembro, com destaque para o dia 10, Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. A campanha, criada pela ABP em parceria com o CFM e o CVV, tem como eixo permanente a valorização da vida e o incentivo à busca de ajuda.
Falar sobre suicídio com alguém pode piorar a situação?
Não — perguntar com respeito e sem julgamento tende a aliviar, porque permite que a pessoa fale de uma dor que já existe. O que pode prejudicar é o modo: evite julgamentos, sermões e detalhes sobre métodos, e mantenha o foco no acolhimento e na busca de ajuda profissional.
O que fazer se alguém me contar que está pensando em suicídio?
Ouça com calma, leve a sério, não deixe a pessoa sozinha em risco imediato e ajude a acionar apoio: CVV (188), CAPS, SAMU (192) ou emergência. Depois do momento agudo, incentive e facilite o acompanhamento contínuo com psicólogo e, quando indicado, psiquiatra.
O CVV funciona todos os dias? Quanto custa?
Sim — o CVV atende 24 horas por dia, todos os dias do ano, de forma totalmente gratuita e sigilosa pelo telefone 188. Também é possível conversar pelo chat no site cvv.org.br, uma alternativa importante para quem se sente mais confortável escrevendo.
A terapia online ajuda na prevenção ao suicídio?
A psicoterapia, inclusive no formato online, é um dos pilares do cuidado contínuo com a saúde mental e do tratamento de condições como a depressão. Ela não substitui serviços de emergência em crises agudas, mas atua na base: fortalece recursos internos, trata o sofrimento e reduz o isolamento — fatores centrais da prevenção.

Paulo Henrique
Psicólogo Clínico - CRP 13/13904
Especializado em Gestalt-terapia, oferece atendimento humanizado e personalizado para adultos e idosos.
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