Quiet quitting e bore-out: quando a desmotivação vira doença
Entenda o que são quiet quitting e bore-out, como a desmotivação crônica no trabalho pode evoluir para adoecimento e quando buscar ajuda profissional.
Vitor Hugo Bordini
Psicólogo Clínico - CRP 14/10429

"Eu faço o mínimo. Não porque sou preguiçoso, mas porque já entendi que fazer mais não muda nada."
Essa frase, cada vez mais comum no vocabulário profissional, captura a essência de um fenômeno que ganhou nome nas redes sociais: o quiet quitting. Mas por trás do termo da moda, existe uma realidade clínica que merece um olhar mais cuidadoso — e que vai muito além de uma tendência passageira.
Ao lado do quiet quitting, outro conceito tem ganhado atenção: o bore-out, uma forma de esgotamento causada não pelo excesso, mas pela falta — de estímulo, de sentido, de desafio. Juntos, esses dois fenômenos revelam uma face menos visível do sofrimento no trabalho: a desmotivação crônica que, quando ignorada, pode evoluir para um adoecimento real.
O que é quiet quitting
O termo "quiet quitting" — traduzido livremente como "demissão silenciosa" — não significa literalmente pedir demissão. Refere-se à decisão consciente ou inconsciente de fazer apenas o estritamente necessário no trabalho, sem investir energia emocional, sem buscar ir além, sem se envolver com o que acontece na empresa.
É importante compreender que o quiet quitting pode representar coisas muito diferentes dependendo do contexto:
- Uma forma legítima de autopreservação: quando a pessoa percebe que o ambiente não valoriza seu esforço e decide proteger sua energia para outras áreas da vida
- Um sinal de esgotamento em curso: quando o afastamento emocional do trabalho não é escolha, mas consequência de uma exaustão que já se instalou
- Um sintoma de perda de sentido: quando o trabalho deixou de fazer sentido e a pessoa não encontra razão para se dedicar além do mínimo
Na prática clínica, é comum observar que o quiet quitting se instala de forma gradual. A pessoa que antes chegava ao trabalho com ideias e disposição começa a perceber que sua energia foi diminuindo, quase sem notar. Quando se dá conta, já está operando no modo mínimo — e muitas vezes não sabe explicar exatamente quando ou por que isso começou.
O risco está em tratar o quiet quitting apenas como uma escolha de estilo de vida, ignorando que em muitos casos ele é um sintoma — um sinal de que algo importante se perdeu na relação entre a pessoa e o trabalho.
O quiet quitting no contexto brasileiro
No Brasil, o fenômeno ganha contornos próprios. A cultura de dedicação extrema ao trabalho — frequentemente associada à ideia de "vestir a camisa" — torna ainda mais difícil para as pessoas reconhecerem e expressarem sua desmotivação. Admitir que você está fazendo apenas o necessário pode parecer uma confissão de fracasso em um país onde o excesso de trabalho é frequentemente celebrado como virtude.
Essa pressão cultural pode transformar o quiet quitting em uma experiência ainda mais solitária e carregada de culpa — o que reforça a importância de não tratar o tema como modismo, mas como uma questão de saúde mental que merece atenção séria.
O que é bore-out
Se o burnout é o esgotamento por excesso, o bore-out é o esgotamento por falta. O conceito, desenvolvido pelos consultores Philippe Rothlin e Peter Werder, descreve uma síndrome causada por tédio crônico, falta de desafio e subutilização de habilidades no trabalho.
O bore-out se caracteriza por três componentes principais:
- Tédio crônico: a sensação persistente de que o trabalho é monótono, repetitivo e sem estímulo intelectual
- Falta de desafio: as tarefas estão significativamente abaixo da capacidade da pessoa, gerando sensação de estagnação
- Desinteresse: perda progressiva de conexão com o trabalho, os colegas e os objetivos da empresa
Pessoas que vivenciam bore-out frequentemente relatam uma sensação paradoxal: estão exaustas, apesar de "não fazerem nada". Isso acontece porque manter-se presente — física e mentalmente — em um ambiente que não oferece estímulo exige um esforço emocional enorme. Fingir produtividade, preencher horas vazias e lidar com a culpa de não estar engajado são atividades invisíveis que drenam energia.
Diferente do que se poderia pensar, o bore-out não é "ter sorte de ter um emprego fácil". A falta de estímulo no trabalho pode gerar sofrimento tão intenso quanto o excesso — porque o ser humano precisa de sentido, desafio e crescimento para manter seu equilíbrio emocional.
Como esses fenômenos se transformam em adoecimento
Quando a desmotivação crônica — seja por quiet quitting ou bore-out — se prolonga sem reconhecimento ou tratamento, ela pode evoluir para condições clinicamente significativas.
Os sinais de que a desmotivação ultrapassou o limite do "normal" incluem:
- Apatia generalizada: o desinteresse que começou no trabalho se estende para outras áreas da vida
- Sintomas depressivos: tristeza persistente, falta de energia, dificuldade de sentir prazer mesmo fora do trabalho
- Ansiedade mascarada: a aparente "indiferença" pode esconder uma ansiedade intensa sobre o futuro profissional
- Culpa crônica: a pessoa se sente culpada por não "querer mais", intensificando o sofrimento
- Vergonha social: dificuldade em admitir que está sofrendo por "fazer pouco", já que a cultura valoriza quem está sobrecarregado
- Somatização: dores de cabeça, problemas gastrointestinais e cansaço sem causa médica aparente
Um aspecto particularmente traiçoeiro do bore-out é o paradoxo da vergonha: a pessoa sofre por não ter trabalho suficiente ou por não se sentir desafiada, mas não se sente no direito de reclamar — afinal, "tem gente que gostaria de estar no meu lugar". Essa vergonha impede a busca por ajuda e prolonga o sofrimento.
O que fazer quando a desmotivação se instala
Reconhecer o problema é o primeiro passo. A partir daí, algumas ações podem ajudar:
No nível pessoal
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Nomear o que está acontecendo: distinguir se a desmotivação é escolha consciente de autopreservação ou sintoma de algo mais profundo
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Avaliar o ajuste pessoa-trabalho: às vezes, a desmotivação sinaliza que as habilidades e valores da pessoa não estão alinhados com o que o trabalho oferece
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Buscar estímulos dentro ou fora do trabalho: quando o trabalho não pode ser mudado imediatamente, investir em atividades que tragam desafio e sentido em outras esferas
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Conversar com a liderança: quando há abertura, expressar a necessidade de novos desafios ou responsabilidades
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Resistir à culpa: lembrar que sentir desmotivação não é defeito moral — é informação sobre uma situação que precisa mudar
No nível profissional
Considere buscar acompanhamento psicológico quando:
- A desmotivação persiste há mais de um mês e não melhora com mudanças pontuais
- Você percebe que o desinteresse está se espalhando para outras áreas da vida
- Sentimentos de culpa, vergonha ou vazio acompanham a falta de motivação
- Você já não consegue distinguir se está fazendo uma escolha ou sendo arrastado por uma exaustão
Como a Gestalt-terapia compreende a desmotivação crônica
A Gestalt-terapia compreende o quiet quitting e o bore-out como formas de perda de contato — tanto consigo mesmo quanto com o ambiente. Quando a pessoa se desconecta emocionalmente do trabalho, geralmente algo anterior se perdeu: o sentido, a segurança, o reconhecimento ou a sensação de que seu esforço importa.
Na abordagem gestáltica, o trabalho terapêutico explora:
- O que se perdeu: qual era a relação anterior com o trabalho e em que momento ela mudou
- Os ajustamentos criativos: o quiet quitting pode ser visto como uma forma que a pessoa encontrou para se proteger — uma estratégia que fez sentido, mas que pode estar custando caro
- O contato com as necessidades reais: o que a pessoa de fato precisa — mais desafio, mais sentido, mais reconhecimento, ou simplesmente um ambiente diferente
- A polaridade entre ficar e sair: explorar, no aqui-agora (momento presente), o que sustenta a permanência e o que impulsiona a mudança
Psicoterapia online na Figura & Fundo
Na Figura & Fundo, compreendemos que a desmotivação no trabalho não é preguiça nem frescura — é um sinal que merece escuta profissional. Nosso atendimento online permite acessar esse cuidado de qualquer lugar do Brasil, sem adicionar mais uma obrigação à sua rotina.
Trabalhamos com valores fixos e transparentes, sem contratos ou amarras financeiras. Se o investimento em psicoterapia particular não é possível no momento, existem alternativas gratuitas: CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), UBS com atendimento psicológico e clínicas-escola de universidades.
Desmotivação não é o fim — é um recomeço possível
O quiet quitting e o bore-out são sinais de que algo na relação entre você e o trabalho precisa ser revisitado. Não são defeitos de caráter nem escolhas de quem "não quer nada". São respostas humanas a condições que não estão funcionando.
Reconhecer isso não é fraqueza. É, na verdade, o tipo de honestidade consigo mesmo que pode abrir caminho para mudanças reais — seja no trabalho atual, em um novo caminho profissional, ou na forma como você se relaciona com suas próprias expectativas.
Se você sente que a motivação se perdeu e não sabe como recuperá-la, entre em contato com a equipe da Figura & Fundo. Vamos conversar sobre o que está acontecendo e explorar juntos os próximos passos.
Perguntas frequentes
O que é quiet quitting? É a decisão consciente ou inconsciente de fazer apenas o estritamente necessário no trabalho, sem investir energia emocional além do mínimo. Pode ser autopreservação legítima ou sintoma de esgotamento.
O que é bore-out? É o esgotamento causado por tédio crônico, falta de desafio e subutilização de habilidades no trabalho. Diferente do burnout (excesso), o bore-out vem da falta de estímulo.
Quiet quitting é preguiça? Não. É frequentemente uma resposta a ambientes que não valorizam o esforço. A prática clínica mostra que pessoas em quiet quitting geralmente foram as mais dedicadas antes do desengajamento.
Quando a desmotivação no trabalho vira problema de saúde? Quando se estende para outras áreas da vida, gera sintomas depressivos, ansiedade mascarada, culpa crônica ou somatização. Nesses casos, buscar ajuda profissional é importante.
Referências
- Anand, A. et al. (2023). The quiet quitting scale: Development and initial validation. AIMS Public Health, 10(4), 956-974. Disponível em: https://doi.org/10.3934/publichealth.2023055
- Maslach, C. & Leiter, M. P. (2016). Understanding the burnout experience: recent research and its implications for psychiatry. World Psychiatry, 15(2), 103-111. Disponível em: https://doi.org/10.1002/wps.20311
- van Hooff, M. L. M. & van Hooft, E. A. J. (2014). Boredom at work: proximal and distal consequences of affective work-related boredom. Journal of Occupational Health Psychology, 19(3), 348-359. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10995674/
- World Health Organization. (2022). World Mental Health Report. Geneva: WHO. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240049338
Este artigo tem caráter informativo e educacional. As informações apresentadas não substituem avaliação profissional individualizada. Se você apresenta sintomas descritos, procure um psicólogo ou psiquiatra para avaliação adequada.

Vitor Hugo Bordini
Psicólogo Clínico - CRP 14/10429
Especializado em Gestalt-terapia, oferece atendimento humanizado e personalizado para adultos e idosos.
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