Presenteísmo: quando você está no trabalho, mas sua mente não
Entenda o que é presenteísmo, por que estar presente no trabalho sem conseguir produzir pode ser mais prejudicial do que faltar, e quando buscar ajuda.
Vitor Hugo Bordini
Psicólogo Clínico - CRP 14/10429

Você está na reunião, mas sua mente está em outro lugar. Lê o mesmo parágrafo pela terceira vez sem absorver uma palavra. Responde mensagens no automático. Olha para a tela, mas o que vê é um borrão. O corpo está no trabalho. Mas você — de verdade — não está.
Essa experiência tem nome: presenteísmo. E embora seja menos discutido que o absenteísmo (faltar ao trabalho), seus efeitos podem ser ainda mais prejudiciais — tanto para a pessoa quanto para a organização.
Se você se reconhece nessa descrição, este artigo pode ajudar a entender o que está acontecendo e por que prestar atenção a esse sinal é tão importante.
O que é presenteísmo
O presenteísmo é o fenômeno de estar fisicamente presente no trabalho, mas com capacidade produtiva significativamente reduzida devido a problemas de saúde — físicos ou mentais. Diferente do absenteísmo, que é visível e mensurável (a pessoa falta), o presenteísmo é invisível: a pessoa está lá, mas não consegue funcionar plenamente.
Uma revisão crítica publicada no Applied Health Economics and Health Policy demonstrou que os custos associados ao presenteísmo tendem a ser 5 a 10 vezes maiores do que os custos do absenteísmo (Dewa et al., 2022). Esse dado pode parecer contraintuitivo, mas faz sentido: enquanto a ausência de um funcionário é notada e gerenciada, o presenteísmo passa despercebido — a pessoa está "trabalhando", mesmo que a qualidade e o volume do que produz estejam drasticamente reduzidos.
É importante diferenciar o presenteísmo de:
- Um dia ruim: todos têm dias de menor produtividade — isso é normal e humano
- Procrastinação: o presenteísta não está adiando tarefas por escolha; está genuinamente incapacitado de produzir como normalmente faria
- Desinteresse voluntário: diferente do quiet quitting, o presenteísmo não é uma decisão consciente — é consequência de uma condição de saúde
As causas mais comuns do presenteísmo
O presenteísmo pode ser causado por qualquer condição de saúde que reduza a capacidade funcional sem impedir completamente o trabalho. Mas as causas mais frequentes estão ligadas à saúde mental:
- Depressão: a perda de concentração, energia e motivação que acompanha a depressão é uma das principais causas de presenteísmo
- Ansiedade: a preocupação excessiva consome recursos cognitivos que deveriam estar disponíveis para o trabalho
- Burnout: o esgotamento crônico reduz progressivamente a capacidade produtiva, mesmo quando a pessoa continua comparecendo
- Insônia: a privação de sono compromete concentração, memória e tomada de decisões
- Dores crônicas: enxaquecas, dores nas costas e outras condições físicas que não justificam falta, mas prejudicam o desempenho
Uma revisão sistemática com 164.274 participantes confirmou que a presença de transtornos mentais está positivamente associada à perda de produtividade, e que quanto mais grave o transtorno, maior a perda (Santos et al., 2023).
Por que as pessoas praticam presenteísmo
Se a pessoa não está bem, por que não fica em casa? Essa pergunta revela um desconhecimento sobre as pressões reais que levam ao presenteísmo:
- Medo de perder o emprego: em mercados competitivos, faltar pode ser visto como falta de comprometimento
- Cultura de presencialismo: ambientes que valorizam "estar presente" acima de "produzir com qualidade"
- Culpa e autoexigência: a crença de que deveria "aguentar" e que pedir para sair seria fraqueza
- Falta de consciência: muitas pessoas não percebem que estão em presenteísmo — acham que é apenas "um dia difícil"
- Ausência de políticas de saúde mental: empresas sem suporte adequado deixam o trabalhador sem alternativa entre "ir doente" e "faltar"
- Precarização: trabalhadores sem carteira assinada ou em contratos temporários não têm a opção de faltar sem perder renda
Os sinais de que você pode estar em presenteísmo
Reconhecer o presenteísmo em si mesmo exige um tipo de honestidade que nem sempre é fácil. Alguns sinais que merecem atenção:
- Você passa longas períodos olhando para a tela sem produzir nada efetivo
- Tarefas que normalmente levam uma hora passam a consumir o dia inteiro
- Sua capacidade de concentração caiu significativamente nas últimas semanas
- Você comete erros que antes não cometia
- Precisa reler textos e e-mails múltiplas vezes para compreendê-los
- Sente-se exausto mesmo tendo "feito pouco"
- Colegas ou lideranças já comentaram sobre mudanças no seu desempenho
- Você está no trabalho porque "precisa", não porque consegue de fato trabalhar
Se vários desses sinais são reconhecíveis, considere que seu corpo e sua mente podem estar sinalizando algo que merece atenção — não mais esforço.
O impacto do presenteísmo para além da produtividade
O presenteísmo não afeta apenas o desempenho profissional. Seus efeitos se estendem para múltiplas dimensões:
Na saúde da pessoa
Continuar trabalhando enquanto deveria estar se recuperando frequentemente agrava a condição original. O que poderia ser resolvido com alguns dias de descanso ou tratamento precoce pode evoluir para um quadro mais grave que exigirá semanas ou meses de afastamento.
Na qualidade do trabalho
Erros, retrabalho, decisões equivocadas e comunicação deficiente são consequências diretas do presenteísmo que afetam toda a equipe e, em alguns setores, podem ter consequências graves (saúde, educação, segurança).
Nos relacionamentos profissionais
A pessoa em presenteísmo frequentemente se torna mais irritável, menos colaborativa e menos disponível para os colegas — o que pode gerar conflitos e desgaste relacional sem que a causa real seja compreendida.
Na autoestima
A experiência repetida de "não dar conta" no trabalho corrói a autoconfiança. A pessoa passa a se ver como incompetente, sem perceber que o problema não é capacidade — é saúde.
O que fazer quando reconhecer o presenteísmo
- Nomear o que está acontecendo: "estou em presenteísmo" já é um passo importante
- Avaliar a causa: o que está comprometendo sua capacidade — sono, ansiedade, esgotamento, dor?
- Conversar com a liderança: quando possível, comunicar que não está bem pode abrir espaço para ajustes temporários
- Buscar acompanhamento profissional: se o presenteísmo persiste, é sinal de que algo precisa de atenção clínica
- Considerar o afastamento: em casos mais graves, o afastamento por saúde mental pode ser mais produtivo do que semanas de presença improdutiva
Como a Gestalt-terapia compreende o presenteísmo
A Gestalt-terapia compreende o presenteísmo como uma forma de perda de contato — a pessoa perde contato consigo mesma (não percebe que está doente), com o trabalho (não consegue se engajar) e com o ambiente (está presente, mas não participa de verdade).
O trabalho terapêutico pode ajudar a:
- Restaurar a awareness (consciência plena): perceber, sem julgamento, que algo não está bem — antes que o corpo force uma parada mais drástica
- Questionar as introjeções sobre presença: "estar presente = ser bom profissional" é uma crença que nem sempre serve ao bem-estar
- Explorar a autorregulação organísmica: reconectar-se com a sabedoria do corpo, que sabe quando precisa de pausa, mesmo quando a mente insiste em continuar (Yontef, 1993)
- Trabalhar a culpa do descanso: para muitas pessoas, a maior barreira não é prática — é emocional. Permitir-se parar pode ser o trabalho terapêutico mais transformador
Psicoterapia online na Figura & Fundo
Na Figura & Fundo, compreendemos que o presenteísmo é frequentemente um estágio intermediário — entre "estar bem" e "precisar se afastar". A psicoterapia online permite intervir nesse estágio, antes que a situação se agrave. Agir cedo é sempre mais efetivo do que esperar o colapso.
Trabalhamos com valores fixos e transparentes, sem contratos ou amarras. Se a psicoterapia particular não é acessível no momento, existem alternativas gratuitas: CAPS, UBS com atendimento psicológico e clínicas-escola de universidades.
Estar presente não é o mesmo que estar inteiro
O presenteísmo é um sinal silencioso de que algo importante precisa de atenção. Não é preguiça, não é falta de compromisso e não é escolha. É o que acontece quando uma pessoa tenta continuar funcionando além do que sua saúde permite.
Se você se reconheceu neste artigo, honre esse reconhecimento. Cada pessoa responde de forma única ao processo de cuidado, mas o primeiro passo é sempre o mesmo: perceber que estar presente fisicamente não significa estar inteiro — e que você merece estar inteiro.
Entre em contato com a equipe da Figura & Fundo. Vamos conversar sobre como dar esse passo.
Perguntas frequentes
O que é presenteísmo? É estar fisicamente presente no trabalho mas com capacidade produtiva significativamente reduzida devido a problemas de saúde — físicos ou mentais. É invisível: a pessoa está lá, mas não consegue funcionar plenamente.
Presenteísmo é pior que absenteísmo? Em termos de custo, pode ser. Estudos indicam que os custos do presenteísmo são 5 a 10 vezes maiores que os do absenteísmo, porque passa despercebido e se prolonga sem tratamento.
Como saber se estou em presenteísmo? Se você passa longos períodos olhando para a tela sem produzir, tarefas simples consomem o dia inteiro, comete erros incomuns e se sente exausto apesar de ter "feito pouco".
O que fazer ao reconhecer presenteísmo? Avalie a causa (sono, ansiedade, esgotamento), comunique à liderança quando possível e busque acompanhamento profissional. Em casos graves, o afastamento pode ser mais produtivo que semanas de presença improdutiva.
Referências
- Dewa, C. S. et al. (2022). The Role of Mental Health on Workplace Productivity: A Critical Review of the Literature. Applied Health Economics and Health Policy, 21, 167-193. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s40258-022-00761-w
- Santos, K. O. B. et al. (2023). Presenteeism and mental health of workers during the COVID-19 pandemic: a systematic review. Frontiers in Public Health, 11, 1224332. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10536966/
- World Health Organization. (2022). World Mental Health Report: Transforming Mental Health for All. Geneva: WHO. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240049338
- Yontef, G. M. (1993). Awareness, Dialogue, and Process: Essays on Gestalt Therapy. Highland, NY: Gestalt Journal Press.
Este artigo tem caráter informativo e educacional. As informações apresentadas não substituem avaliação profissional individualizada. Se você apresenta sintomas descritos, procure um psicólogo ou psiquiatra para avaliação adequada.

Vitor Hugo Bordini
Psicólogo Clínico - CRP 14/10429
Especializado em Gestalt-terapia, oferece atendimento humanizado e personalizado para adultos e idosos.
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