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Saúde Mental
Artigo da Semana

Criança ansiosa: como os pais podem ajudar (sem piorar)

Entenda como funciona a ansiedade infantil, o que os pais costumam fazer com a melhor intenção que piora o quadro e quais estratégias realmente ajudam a criança ansiosa.

Foto de Paulo Henrique Bernardes Lopes

Paulo Henrique Bernardes Lopes

Psicólogo Clínico - CRP Ativo

20 de maio de 2026
12 min
Capa: Criança ansiosa: como os pais podem ajudar (sem piorar)
Leitura: 12 min
Nível: Intermediário

Seu filho chora antes da escola. Pede para dormir na sua cama. Faz a mesma pergunta pela décima vez. Não quer ir no aniversário do amigo. Pede para você verificar, de novo, se a porta está trancada. Você explica. Acolhe. Afasta o que dá medo. Evita o gatilho. Faz tudo que um pai ou mãe amorosa faria. E, mesmo assim, a ansiedade dele não diminui — parece, às vezes, até crescer.

Se você tem vivido alguma versão disso, não está fazendo errado por ignorância. Está fazendo o que qualquer adulto que ama uma criança faria. Mas há algo sobre a ansiedade infantil que a maior parte dos pais aprende tarde: muitas das respostas mais intuitivas pioram o quadro em vez de melhorá-lo. Não por culpa sua. Por funcionamento da própria ansiedade.

Este artigo é um guia sério — baseado em pesquisa contemporânea e em prática clínica — sobre o que é a ansiedade infantil, por que ela está aumentando, o que pais costumam fazer sem querer que acaba alimentando o sintoma e, principalmente, o que funciona.

Ansiedade infantil: o que é, o que não é

Toda criança sente medo. Medo do escuro, do médico, de se separar dos pais, do primeiro dia de aula. Isso não é ansiedade — é desenvolvimento. Fazem parte, literalmente, das tarefas esperadas da infância.

A ansiedade vira questão clínica quando:

  • A intensidade é desproporcional à situação
  • A duração é persistente (semanas ou meses, não horas)
  • Prejudica o funcionamento da criança — escola, sono, alimentação, amizades
  • A criança (e/ou a família) sofre de modo significativo com isso

O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais descreve diferentes quadros ansiosos que podem aparecer na infância, incluindo transtorno de ansiedade de separação, fobia específica, ansiedade social, transtorno de ansiedade generalizada, mutismo seletivo, entre outros (APA, 2013). Cada um exige avaliação profissional para ser identificado corretamente.

A distinção importante é: nem toda criança tímida, cautelosa ou reservada tem transtorno de ansiedade. E, ao mesmo tempo, nem toda ansiedade infantil grave se apresenta "como se espera". Algumas crianças manifestam ansiedade por irritabilidade, raiva, comportamentos desafiadores — e não por choro ou retraimento.

Por que mais crianças parecem ansiosas hoje

Os últimos anos trouxeram, para a psicologia infantil, uma preocupação concreta. Relatórios da Organização Mundial da Saúde apontam um crescimento de problemas de saúde mental entre crianças e adolescentes, agravado por fatores como a pandemia, o uso precoce e intensivo de telas, a insegurança social e as mudanças rápidas nos modos de vida familiar (World Health Organization, 2022).

Além disso, há um fator mais silencioso: o ambiente emocional em que as crianças crescem hoje costuma, paradoxalmente, proteger demais. Quando pais bem-intencionados tentam eliminar todo desconforto possível da vida dos filhos, a criança perde oportunidades essenciais de aprender a atravessar desconforto. E atravessar desconforto é, em grande medida, o que constrói resiliência emocional.

Esse ponto é central no trabalho do pesquisador Eli Lebowitz, da Universidade Yale, cuja pesquisa demonstrou que intervenções centradas nos pais — ensinando-os a não reforçar comportamentos de esquiva da criança — podem ser tão eficazes quanto a terapia cognitivo-comportamental aplicada diretamente à criança (Lebowitz, 2021). A descoberta tem uma implicação poderosa: os pais são parte fundamental da solução, tanto quanto podem, sem querer, ser parte do problema.

O que os pais fazem — com toda boa intenção — que piora

Nenhuma das ações abaixo é "erro". São respostas naturais, amorosas, humanas. Mas, quando se tornam padrão, alimentam o ciclo ansioso que se pretendia aliviar.

Acomodação do sintoma

Dormir na cama dos pais sempre que houver medo. Tirar a criança de qualquer situação que gere ansiedade. Fazer a lição por ela quando ela trava. Responder por ela quando alguém pergunta. Entregar o celular para acalmar. Esses movimentos aliviam o momento, mas ensinam implicitamente: "você não é capaz de atravessar isso".

A criança aprende que só fica bem quando o gatilho é removido — e passa a depender, cada vez mais, dessa remoção. O raio de segurança dela encolhe.

Garantias infinitas

"Não vai acontecer nada." "Você não vai passar mal." "Não precisa ter medo." Frases ditas centenas de vezes, com a melhor intenção. O problema é que a criança ansiosa raramente se tranquiliza com essas frases — ela pergunta de novo, e de novo, e de novo. Cada resposta funciona como um breve alívio. Logo em seguida, a ansiedade retorna, e ela pede de novo.

Esse padrão é conhecido na literatura como reassurance seeking (busca por segurança) e alimenta ativamente a ansiedade. Cada ciclo de pergunta-resposta treina o sistema nervoso a precisar cada vez mais da confirmação externa.

Transferência do próprio nervosismo

Crianças captam, com precisão impressionante, o estado emocional dos adultos à volta. Se os pais se alarmam toda vez que a criança demonstra desconforto, ela absorve duas mensagens: (1) meu desconforto é um problema grande e (2) meus pais não têm calma para me ajudar com isso. Nenhuma das duas ajuda.

Isso não significa que os pais não devam sentir nada. Significa que a própria ansiedade dos pais frequentemente precisa de espaço terapêutico próprio.

Evitar qualquer conversa difícil

"Não vamos falar disso para não piorar." É uma das frases mais comuns. Mas evitar o tema ensina à criança que ele é perigoso demais para ser nomeado — o que tende a aumentar a angústia, não a diminuí-la. Crianças precisam de palavras para o que sentem; sem elas, o medo ocupa o lugar todo.

Confundir acalmar com acomodar

Há uma diferença importante — e sutil — entre acalmar (oferecer presença, tom de voz estável, validação) e acomodar (ceder ao comportamento ansioso). Acalmar ajuda; acomodar alimenta. Muitos pais misturam os dois sem perceber.

O que funciona (e tem evidência)

A boa notícia é que há caminhos bem estudados. Nenhum é milagroso; todos exigem paciência, consistência e, muitas vezes, apoio profissional. Mas funcionam.

Validar o sentimento, não o comportamento ansioso

Validar é dizer: "entendo que você está com medo, esse medo é real para você". Não é dizer: "tudo bem, vamos ficar em casa então" para evitar o gatilho. A criança precisa sentir que o que ela sente é legítimo — e que ela é capaz de atravessar isso.

Uma frase simples funciona como regra de bolso: "eu sei que é difícil e eu sei que você consegue". As duas partes importam.

Reduzir gradualmente a acomodação

Em vez de remover toda a dificuldade, pais podem ir, com cuidado e apoio, permitindo que a criança encontre pequenas doses de desconforto manejável — acompanhada, não sozinha. Pequenos desafios, sustentados com presença, constroem confiança real.

Esse é o princípio por trás do programa SPACE (Supportive Parenting for Anxious Childhood Emotions), desenvolvido por Lebowitz e colegas em Yale, que mostra que treinar pais para reduzir acomodação — em vez de trabalhar diretamente com a criança — produz melhoras significativas na ansiedade infantil (Lebowitz, 2021).

Coregular, não resolver

Quando a criança está em pico de ansiedade, não é momento para conversa explicativa. É momento para presença reguladora: respiração calma, tom de voz baixo e firme, toque físico se a criança aceitar, proximidade sem pressão. A ansiedade é fisiológica antes de ser cognitiva. O corpo do adulto estável é o remédio mais potente naquele minuto.

Trabalhar a própria ansiedade dos pais

Se o pai ou a mãe opera em estado de alerta constante, dificilmente conseguirá oferecer à criança o campo calmo que ela precisa. Isso não é culpa: é realidade sistêmica. Muitas vezes, o cuidado mais eficaz com uma criança ansiosa começa pelo acompanhamento terapêutico de um dos adultos cuidadores.

Esse ponto dialoga com o que exploramos no cluster mais amplo deste mês sobre relações familiares e saúde mental.

Nomear emoções no cotidiano

Crianças que crescem em ambientes em que emoções são nomeadas ("você está frustrado", "parece que tem um nervosinho aí", "parece que ficou triste com isso") desenvolvem maior alfabetização emocional — e quadros ansiosos tendem a ser menos severos. Esse vocabulário não se ensina em aula; se aprende em casa, com repetição.

Estabelecer rotinas previsíveis

Sono regular, horários estáveis, rotinas claras. Não por rigidez — por previsibilidade. Um sistema nervoso infantil em desenvolvimento se sustenta melhor com bordas conhecidas.

Limitar telas com critério

Não por moralismo, mas por fisiologia: uso excessivo de telas em crianças ansiosas tende a aumentar ativação e reduzir a capacidade de tolerar tédio — matéria-prima essencial da imaginação e do autorregular. Isso não é opinião — é tendência consistente na literatura contemporânea sobre desenvolvimento.

Quando procurar ajuda profissional

Nem toda ansiedade infantil exige psicoterapia. Crianças atravessam fases. Mas alguns sinais indicam que o quadro merece avaliação especializada:

  • Sintomas persistentes por mais de algumas semanas
  • Interferência clara na escola, no sono, na alimentação ou na convivência
  • Recusa escolar (não apenas preguiça — evitação ansiosa)
  • Sintomas físicos frequentes sem causa orgânica (dores de barriga, de cabeça)
  • Rituais ou verificações repetitivas (pode sinalizar componente obsessivo)
  • Ataques de pânico
  • Sofrimento intenso da criança e da família
  • Isolamento social acentuado

Nesses casos, uma primeira avaliação com psicólogo infantil, pediatra, psiquiatra da infância — ou a própria psicoterapia dos pais — já pode direcionar o próximo passo.

Kendall, que desenvolveu o programa Coping Cat — uma das intervenções cognitivo-comportamentais para ansiedade infantil com mais evidência acumulada —, descreve que a combinação de terapia infantil adaptada à idade e orientação parental costuma produzir os melhores resultados a longo prazo (Kendall, 2012).

Como a Gestalt-terapia olha para a ansiedade infantil

A Gestalt-terapia — abordagem que orienta o trabalho da Figura & Fundo — oferece uma leitura relacional da ansiedade infantil. Em vez de olhar a criança como um sintoma isolado, considera o campo em que ela está inserida: família, escola, rotinas, estilos de apego, introjeções herdadas.

Na prática, com crianças em sofrimento ansioso, o trabalho gestáltico pode envolver:

  • Awareness corporal adaptada à idade: ajudar a criança a reconhecer no corpo as sensações da ansiedade ("onde é que o nervoso fica?", "que cor teria esse medo?"), como base para autorregular
  • Experimentos lúdicos: usar jogos, desenhos, figuras, para dar forma e voz ao que a criança ainda não consegue nomear verbalmente
  • Trabalho com os pais em paralelo: ajudar os adultos cuidadores a perceber e transformar os padrões familiares que, sem querer, alimentam a ansiedade
  • Integração do ambiente: entender que a criança se desenvolve no campo — e que pequenas mudanças no campo (rotinas, acordos, espaços protegidos) têm efeito clínico real (Ribeiro, 2006)

Como aponta Yontef (1993), o objetivo não é suprimir a ansiedade — é ampliar a consciência da criança e dos adultos à sua volta sobre o que acontece, de modo que respostas novas possam emergir.

Esse olhar se conecta diretamente com o tema da parentalidade consciente, que aprofundaremos em outro artigo do cluster.

A armadilha do "tirar o medo"

Um dos pontos mais difíceis deste tema é aceitar que, para uma criança ansiosa atravessar bem, ela precisa passar pelo medo — não ao redor dele. O papel dos pais não é impedir o desconforto; é acompanhar a travessia. E isso, para pais amorosos, pode soar contraintuitivo: "como assim deixar meu filho passar mal?".

A distinção fina é: não é deixar passar mal sozinho. É estar ao lado enquanto ele aprende que consegue — com você por perto, com tom de voz estável, com amor firme. Esse acompanhamento é o que, com o tempo, transforma uma criança ansiosa num adolescente mais resiliente.

Psicoterapia online na Figura & Fundo

Na Figura & Fundo, trabalhamos com frequência no acompanhamento de pais e mães de crianças ansiosas — tanto através da psicoterapia online individual com os pais quanto, quando indicado, em formato familiar. Embora o atendimento de crianças pequenas tenha especificidades que podem exigir o presencial, o apoio aos pais é frequentemente o caminho mais potente de transformação — como a pesquisa de Lebowitz (2021) demonstra.

A psicoterapia online apresenta eficácia equivalente ao atendimento presencial para a maioria dos quadros psicológicos adultos (Carlbring et al., 2018) e oferece a flexibilidade que a vida com filhos exige.

Trabalhamos com valores fixos e transparentes, sem contratos ou amarras. Se a psicoterapia particular não é acessível no momento, existem alternativas gratuitas: CAPS (incluindo CAPS infanto-juvenis em várias cidades), UBS com atendimento psicológico e clínicas-escola de universidades. Em momentos de crise, o CVV (188) oferece apoio emocional 24 horas, inclusive para pais.

Ajudar não é proteger de tudo — é acompanhar a travessia

A ansiedade infantil é um tema que exige, sobretudo, paciência com si mesmo. Ninguém aprende a ser pai ou mãe em tempo real e com leituras de artigo. O que se pode fazer é começar — pequeno, consistente, com apoio — a mudar as respostas automáticas e construir, com o tempo, um modo diferente de estar com a criança nos momentos difíceis.

Se seu filho vem apresentando sinais que te preocupam, ou se você sente que está no limite de como ajudar, entre em contato com a equipe da Figura & Fundo. Vamos conversar com calma sobre o que pode fazer sentido para vocês.

Referências

  • American Psychiatric Association. (2013). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5). 5ª ed. Arlington, VA: APA.
  • Carlbring, P. et al. (2018). Internet-based vs. face-to-face cognitive behavior therapy for psychiatric and somatic disorders: a systematic review and meta-analysis. World Psychiatry, 17(2), 178-193. Disponível em: https://doi.org/10.1002/wps.20610
  • Kendall, P. C. (Ed.). (2012). Child and Adolescent Therapy: Cognitive-Behavioral Procedures. 4ª ed. New York: Guilford Press.
  • Lebowitz, E. R. (2021). Breaking Free of Child Anxiety and OCD: A Scientifically Proven Program for Parents. New York: Oxford University Press.
  • Ribeiro, J. P. (2006). Vade-mécum de Gestalt-terapia: conceitos básicos. São Paulo: Summus.
  • World Health Organization. (2022). World Mental Health Report: Transforming Mental Health for All. Geneva: WHO. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240049338
  • Yontef, G. M. (1993). Awareness, Dialogue, and Process: Essays on Gestalt Therapy. Highland, NY: Gestalt Journal Press.

Este artigo tem caráter informativo e educacional. As informações apresentadas não substituem avaliação profissional individualizada. Se seu filho apresenta sintomas de ansiedade persistentes, procure um psicólogo infantil, pediatra ou psiquiatra da infância e adolescência para avaliação adequada.

Última atualização:20 de maio de 2026
Foto de Paulo Henrique Bernardes Lopes

Paulo Henrique Bernardes Lopes

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