Como perdoar seus pais: o processo terapêutico de elaborar o passado
Entenda o que é (e o que não é) perdoar os pais no sentido terapêutico, por que é um dos trabalhos mais complexos da vida adulta e quais os caminhos possíveis para elaborar.
Vitor Hugo Bordini
Psicólogo Clínico - CRP 14/10429

Alguém já deve ter te dito: "precisa perdoar". Talvez um amigo bem-intencionado, um pastor, um terapeuta apressado, um livro de autoajuda. E talvez você tenha sentido, ao ouvir, uma irritação que não soube explicar. Como se a palavra "perdão" chegasse pedindo algo que você não consegue entregar — e que, no fundo, você nem sabe bem o que significa.
Perdoar os pais é um dos trabalhos mais complexos da vida adulta. Não porque seja impossível — milhões de pessoas o fazem, em algum grau, ao longo dos anos. Mas porque o perdão, como a maior parte da cultura o apresenta, é uma distorção do que, clinicamente, esse processo é. E enquanto a pessoa acreditar que precisa perdoar nos termos da distorção, fica travada: tentando fazer algo que não é o que ela precisa fazer.
Este artigo é sobre isso. Sobre o que é perdão no sentido terapêutico, o que ele não é, por que é tão difícil, e como de fato se elabora uma história parental complicada sem exigir de si mesmo uma performance que não sustenta nenhum processo real.
O que perdão NÃO é (e por que isso importa)
Boa parte da dificuldade em perdoar vem de confundir perdão com coisas que ele não é. Desatar essas confusões já é, por si só, um trabalho libertador.
Perdão não é esquecer
Esquecer o que aconteceu seria anular sua história. Perdão, no sentido maduro, só é possível depois de reconhecer com clareza o que houve. Ninguém pode perdoar o que não viu. Quem diz "já superei, nem lembro mais" frequentemente não perdoou — anestesiou.
Perdão não é dizer que estava tudo bem
Reconhecer que algo te machucou e perdoar não são opostos. São complementares. O que machuca continua sendo o que machuca. O perdão não reclassifica o passado. Ele muda a forma como você carrega o passado hoje.
Perdão não é reconciliar
Pode haver perdão com reaproximação. Pode haver perdão com distanciamento. Pode haver perdão depois da morte de quem te machucou. Perdão é um processo interno; reaproximação é uma decisão separada, que envolve leitura do presente — não só do passado.
Perdão não é obrigação moral
Discursos religiosos, familiares ou sociais frequentemente apresentam o perdão como dever. Essa pressão é, em geral, contraproducente: tentar perdoar antes do tempo costuma adiar o perdão real. O que acontece, nesses casos, é uma performance de perdão, que dura até que a próxima mágoa o desmonte.
Perdão não é permitir que continuem te machucando
Perdoar não implica voltar a se expor aos mesmos padrões. Uma pessoa pode perdoar seus pais e, ainda assim, optar por manter distância ou estabelecer limites fortes. Perdão e proteção caminham juntos.
Perdão não é favor a eles
Contrariamente ao que frequentemente se diz, perdão não é um presente para quem te machucou. É, antes de tudo, um alívio para quem carrega. Como sintetiza a literatura sobre Terapia do Perdão, o perdão é primariamente um processo de liberação interna do ressentimento que mantém a pessoa presa ao passado (Enright & Fitzgibbons, 2015).
O que, então, é perdão no sentido terapêutico
No sentido clínico, perdão é um processo interno pelo qual a pessoa deixa gradualmente de organizar sua vida emocional em torno do que foi feito a ela. Não apaga, não justifica, não absolve. Retira a carga ativa do passado sobre o presente.
Enright e Fitzgibbons, pioneiros da Terapia do Perdão e autores de uma das obras mais citadas no campo, descrevem o perdão como um trabalho que envolve:
- Reconhecimento honesto da dor
- Permissão para sentir raiva sem culpa
- Compreensão, sem justificação, dos limites do outro
- Elaboração interna que transforma ressentimento em algo mais leve de carregar
- Possibilidade de escolha sobre como participar (ou não) da relação atual
Esse é um trabalho lento e não linear. Avança e retrocede. Não termina num dia — nem numa sessão. E não acontece por decisão isolada, mas por maturação emocional que se constrói com tempo, suporte e autocuidado.
Por que é tão difícil perdoar os pais
A dificuldade específica em perdoar pais tem razões concretas. Nomear essas razões é parte do trabalho.
Porque ainda faz parte da sua vida
Diferentemente de perdoar alguém do passado que saiu de cena, seus pais geralmente continuam presentes — ligando, comentando, esperando, cobrando. Perdão fica mais complicado quando o passado continua acontecendo no presente.
Porque envolve reconhecer o que te foi negado
Perdoar exige olhar, com honestidade, para o que faltou. Cuidado, atenção, escuta, reconhecimento, proteção. Reconhecer essa falta é doloroso — porque, em certo sentido, atualiza a ausência. Muitas pessoas evitam esse luto a vida toda.
Porque implica aceitar que não haverá reparação do jeito que você queria
Muitos filhos adultos esperam, em algum lugar do inconsciente, que um dia os pais reconheçam, peçam desculpa, mudem. Aceitar que isso pode não acontecer — e perdoar mesmo assim — é, para muita gente, o trabalho terapêutico mais difícil.
Porque mistura amor real e mágoa real
A pessoa que te machucou é também a pessoa que você ama. As duas emoções coexistem, sem se anularem. Essa ambivalência — sentida com culpa por muitas pessoas — é, na verdade, sinal de saúde emocional: é capacidade de sustentar complexidade, que é o que uma relação humana madura exige.
Porque o sistema familiar pode pressionar contra
Famílias frequentemente têm narrativas cristalizadas ("sua mãe se sacrificou por você", "seu pai é assim mesmo, mas é bom no fundo"). Qualquer revisão dessas narrativas é vivida como ameaça ao sistema. O filho que começa a nomear o que viveu pode enfrentar pressão familiar para "deixar isso para lá".
Porque você pode ter, você mesmo, introjetado a desqualificação
Quando desde pequena você ouve que seus sentimentos são exagero, drama, frescura, você aprende a se desqualificar antes mesmo de sentir. O trabalho de perdão começa, portanto, pela etapa anterior: se permitir sentir o que sentiu, sem autocensura (Ribeiro, 2006).
As fases (não lineares) do processo terapêutico
Perdão não segue um passo-a-passo de manual. Mas, clinicamente, costumam aparecer alguns movimentos que se alternam, às vezes repetindo, às vezes avançando.
1. Reconhecer o que aconteceu
Antes de qualquer perdão, é preciso nomear com precisão. O que, exatamente, me machucou? Em que momentos? Qual foi o impacto? Sem essa etapa, o que se faz é apagamento, não perdão.
2. Permitir a emoção que vem junto
Raiva, tristeza, indignação, nojo, decepção. Todas essas emoções são dados, não problemas. Muitos adultos chegam à terapia sem nunca terem se permitido, de verdade, sentir raiva dos pais. Esse espaço protegido para sentir é, por si só, terapêutico.
3. Compreender sem justificar
Aqui mora uma distinção fina e essencial. Compreender os pais — o contexto em que cresceram, os limites que tinham, as próprias histórias não elaboradas deles — não é justificar o que fizeram. É enxergá-los como pessoas inteiras, limitadas e complexas — o que muda a forma como você os carrega internamente, sem anular sua dor.
4. Elaborar negócios inacabados
Em Gestalt-terapia, chamamos de negócios inacabados as experiências emocionais que nunca tiveram encerramento — a raiva contida, a tristeza não chorada, o pedido nunca feito, a resposta nunca recebida. Esses negócios, enquanto não elaborados, funcionam como âncoras invisíveis no presente. Dar-lhes espaço terapêutico é parte central do trabalho (Yontef, 1993).
5. Fazer o luto do que você não teve
Esta é a parte mais silenciosa. Aceitar que a mãe atenta, o pai presente, o reconhecimento que você buscava — pode ser que nunca tenha existido e nunca vá existir. Esse luto libera energia que estava travada na espera, e permite que você comece a viver sua vida a partir de onde você efetivamente está.
6. Escolher como carregar dali em diante
Depois de passar pelas fases anteriores, chega um momento em que a pessoa pode, conscientemente, escolher como quer seguir. Com mais contato, com menos, com afastamento, com limites claros, com reaproximação cautelosa. Qualquer escolha feita nesse lugar — e não mais no automático da mágoa — é perdão, no sentido que importa.
Esses movimentos dialogam com temas correlatos do cluster deste mês, como mãe narcisista: como identificar e lidar com a manipulação emocional, pai ausente: os impactos psicológicos que duram a vida toda e filhos adultos de pais tóxicos: como romper o ciclo.
Perdão com ou sem reaproximação
Essa é uma das perguntas mais comuns na clínica. Não há resposta única — mas há princípios orientadores.
Quando a reaproximação pode ser parte do processo
- Quando o outro lado demonstra, em comportamentos concretos, capacidade de reconhecer o que fez
- Quando há abertura mútua para conversar sobre o passado sem negá-lo
- Quando os limites atuais são respeitados pela outra parte
- Quando a saúde mental da pessoa está minimamente estabilizada e há rede de suporte
Quando perdão é internamente possível, mas reaproximação não
- Quando o padrão que machucou continua ativo
- Quando a pessoa que magoou não reconhece (e insistir nisso adoece)
- Quando o contato continuado atualiza o trauma
- Quando, apesar do trabalho interno, aproximar-se ainda gera prejuízo concreto
Nesses casos, perdão ganha outra forma: soltar o ressentimento ativo, parar de esperar reparação externa — e seguir a vida adulta com limites que antes pareciam impossíveis de sustentar.
Quando mesmo o "perdão" não é o objetivo
Em algumas histórias — especialmente as envolvendo abuso grave, violência sustentada, situações traumáticas — a palavra "perdão" pode, ela mesma, funcionar como pressão paralisante. Nesses casos, o trabalho terapêutico foca em algo diferente:
- Elaboração do trauma
- Nomeação honesta do que foi vivido
- Construção de um presente seguro
- Diminuição do peso emocional do passado
- Desidentificação com os papéis de vítima passiva ou perpétua
Chamar ou não de "perdão" o que resulta desse processo é uma escolha pessoal. O que importa é a qualidade da vida que emerge quando o passado deixa de comandar o presente. Para alguns, essa palavra serve; para outros, não. As duas posturas são legítimas.
Como a Gestalt-terapia trabalha esse tema
A Gestalt-terapia — abordagem que orienta o trabalho da Figura & Fundo — oferece recursos particularmente úteis para este processo, porque trabalha com contato, awareness (consciência plena) e elaboração relacional.
No trabalho gestáltico sobre temas parentais complexos, alguns focos típicos:
- Awareness corporal: perceber como o corpo responde quando se fala dos pais — tensão, sensação de aperto, lágrimas, cansaço. Esses sinais são dados clínicos, não ruído
- Experimentos no setting: dar voz ao que nunca foi dito — em diálogos simbólicos, em exercícios de cadeiras, em elaborações escritas dentro do espaço terapêutico. Esses experimentos liberam cargas represadas
- Trabalho com polaridades: a parte de você que ama os pais e a parte que sente raiva. Dar espaço às duas — em vez de fingir que só existe uma — é o que permite integração real
- Examinar as introjeções: as regras engolidas sobre filialidade ("quem tem pai e mãe não pode reclamar", "honrar pai e mãe é mandamento absoluto") são examinadas e, se for o caso, devolvidas — não para rebeldia, mas para escolha adulta consciente
Como aponta Ribeiro (2006), o trabalho gestáltico não impõe conclusões sobre perdoar ou não — oferece o espaço onde a pessoa pode perceber por si mesma o que precisa fazer com sua história.
Esse processo se integra ao tema amplo que atravessa todo o cluster deste mês — relações familiares e saúde mental.
Quando buscar terapia
Alguns sinais de que o tema merece acompanhamento profissional:
- Você se pega ruminando sobre cenas antigas com seus pais, várias vezes por semana
- Pensar neles ativa reações corporais intensas (taquicardia, tensão, choro)
- Você carrega raiva ou tristeza que não consegue nomear com clareza
- Sua relação com parceiros ou com seus próprios filhos é atravessada por padrões herdados
- Você tem tentado "superar" sozinha e o peso continua
- Datas simbólicas (aniversários, Dia das Mães, Dia dos Pais) são fonte de angústia
- Você oscila entre aproximação e afastamento sem conseguir estabilizar
Nenhum desses sinais é sinal de fraqueza. São sinais de que há trabalho interno a ser feito — e que esse trabalho, como qualquer outro, se faz melhor com suporte.
Psicoterapia online na Figura & Fundo
Na Figura & Fundo, acompanhamos com frequência pessoas atravessando esse processo. Nosso trabalho é orientado pela Gestalt-terapia e conduzido sem pressa, sem roteiros prontos, sem conclusões impostas. Perdão, se vier, virá do trabalho honesto — não de instrução externa.
A psicoterapia online apresenta eficácia equivalente ao atendimento presencial para a maioria dos quadros (Carlbring et al., 2018) e oferece a privacidade e flexibilidade especialmente importantes para um trabalho tão íntimo.
Trabalhamos com valores fixos e transparentes, sem contratos ou amarras. Se a psicoterapia particular não é acessível no momento, existem alternativas gratuitas: CAPS, UBS com atendimento psicológico e clínicas-escola de universidades. Em momentos de crise, o CVV (188) oferece apoio emocional 24 horas.
Perdoar é deixar o passado parar de mandar no seu presente
Perdão, no sentido que liberta, é menos um ato e mais um resultado. É o que acontece depois de muito trabalho interno: um dia você percebe que a lembrança ainda está lá, mas não dói como antes. Que consegue pensar neles sem a mesma carga no peito. Que sua vida passou a ser sua, não mais uma resposta reativa ao que eles fizeram ou deixaram de fazer.
Esse ponto não tem prazo. Não se alcança por esforço de vontade. Se alcança por elaboração — e pelo tempo que o tempo precisa.
Se você se reconheceu nestas linhas, entre em contato com a equipe da Figura & Fundo. Vamos conversar, com cuidado e sem pressa, sobre por onde começar.
Referências
- Bowlby, J. (1988). A Secure Base: Parent-Child Attachment and Healthy Human Development. New York: Basic Books.
- Carlbring, P. et al. (2018). Internet-based vs. face-to-face cognitive behavior therapy for psychiatric and somatic disorders: a systematic review and meta-analysis. World Psychiatry, 17(2), 178-193. Disponível em: https://doi.org/10.1002/wps.20610
- Enright, R. D., & Fitzgibbons, R. P. (2015). Forgiveness Therapy: An Empirical Guide for Resolving Anger and Restoring Hope. Washington, DC: American Psychological Association.
- Minuchin, S. (1974). Families and Family Therapy. Cambridge, MA: Harvard University Press.
- Ribeiro, J. P. (2006). Vade-mécum de Gestalt-terapia: conceitos básicos. São Paulo: Summus.
- World Health Organization. (2022). World Mental Health Report: Transforming Mental Health for All. Geneva: WHO. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240049338
- Yontef, G. M. (1993). Awareness, Dialogue, and Process: Essays on Gestalt Therapy. Highland, NY: Gestalt Journal Press.
Este artigo tem caráter informativo e educacional. As informações apresentadas não substituem avaliação profissional individualizada. Se você atravessa sofrimento persistente relacionado à sua história parental, procure um psicólogo para um acompanhamento adequado. Em situações que envolvem abuso ou trauma, é especialmente importante buscar orientação profissional especializada.

Vitor Hugo Bordini
Psicólogo Clínico - CRP 14/10429
Especializado em Gestalt-terapia, oferece atendimento humanizado e personalizado para adultos e idosos.
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