Como parar de se sabotar: entendendo a autossabotagem pela Gestalt
Entenda por que você repete padrões que te prejudicam, como a Gestalt-terapia explica a autossabotagem e descubra caminhos práticos para sair desse ciclo.
Gabriel Guimarães Hass
Psicólogo Clínico - CRP Ativo

Você já se pegou fazendo exatamente o oposto do que queria?
Estava tudo caminhando bem, o projeto no trabalho, o relacionamento, aquele plano que parecia finalmente sair do papel. E então, sem aviso, você faz algo que coloca tudo a perder. Adia uma entrega importante, compra uma briga desnecessária, desiste na reta final.
Se isso soa familiar, saiba que essa experiência tem nome: autossabotagem. E é muito mais comum do que se imagina.
A sensação de "ser seu próprio inimigo" costuma vir acompanhada de culpa e confusão. Afinal, por que alguém agiria contra seus próprios interesses? A resposta, como veremos, é mais complexa e menos cruel do que parece.
O que é autossabotagem, afinal?
Autossabotagem é um padrão de comportamentos, muitas vezes inconscientes, que nos impedem de alcançar objetivos que declaramos querer. Não se trata de preguiça, falta de disciplina ou "frescura". É um mecanismo que, em algum momento, fez sentido na sua história.
Estudos em psicologia mostram que esses padrões atingem diversas áreas da vida:
- Profissional: procrastinar entregas, evitar promoções, conflitos desnecessários com colegas
- Relacional: sabotar relacionamentos saudáveis, escolher parceiros indisponíveis, se afastar quando a intimidade aumenta
- Saúde: abandonar tratamentos, ignorar sinais do corpo, hábitos que prejudicam o bem-estar
- Financeiro: gastar impulsivamente, evitar organizar finanças, recusar oportunidades
O que a autossabotagem não é
É importante diferenciar autossabotagem de outras experiências:
- Não é fraqueza de caráter. Pessoas extremamente competentes e determinadas também se sabotam
- Não é escolha consciente. Ninguém acorda decidindo arruinar o próprio dia
- Não é permanente. É um padrão aprendido, e padrões aprendidos podem ser transformados
- Não é "falta de querer". A pessoa quer genuinamente, mas algo mais profundo interfere
Por que nos sabotamos? As raízes do autoboicote
Para entender a autossabotagem, precisamos olhar além do comportamento visível. Por trás da procrastinação crônica ou do abandono de projetos, geralmente existem camadas emocionais profundas.
Medo do sucesso (sim, ele existe)
Pode parecer contraditório, mas o medo de dar certo é tão real quanto o medo de fracassar. Quando crescemos em ambientes onde o sucesso gerava inveja, cobrança ou afastamento, nosso organismo aprende que "se destacar é perigoso".
Na prática clínica, é comum ouvir relatos como: "Quando as coisas começam a dar certo, eu sinto uma angústia estranha, como se algo ruim estivesse por vir."
Medo da exposição e da vulnerabilidade
Alcançar objetivos muitas vezes significa se tornar mais visível. Para quem carrega feridas de rejeição ou julgamento, essa exposição pode ser ameaçadora. A autossabotagem, nesse caso, funciona como um escudo, imperfeito, mas familiar.
Crenças sobre merecimento
"Eu não mereço isso." Essa frase, às vezes nunca dita em voz alta, opera silenciosamente em muitas pessoas. Quando a autoestima está fragilizada, o sucesso gera uma dissonância: "Se eu não sou bom o suficiente, como posso ter algo bom?"
Lealdade invisível a padrões familiares
Às vezes, ir além do que nossos pais ou cuidadores conquistaram gera uma culpa inconsciente. É como se houvesse um acordo silencioso de que "ir longe demais" significasse trair nossas origens.
A zona de conforto como prisão conhecida
Por mais desconfortável que um padrão seja, ele é previsível. E nosso sistema nervoso tende a preferir o sofrimento conhecido ao desconhecido, mesmo quando o desconhecido é potencialmente melhor.
Sinais de que você pode estar se sabotando
Reconhecer a autossabotagem é o primeiro passo para transformá-la. Considere se algum desses padrões é recorrente na sua vida:
- Procrastinação persistente em tarefas importantes, especialmente quando envolvem crescimento pessoal
- Perfeccionismo paralisante — exigir tanto de si que prefere não começar a entregar algo "imperfeito"
- Começar e não terminar projetos, cursos, tratamentos ou relacionamentos com frequência
- Autojulgamento intenso que mina sua confiança antes mesmo de tentar
- Comparação constante com outros, sempre se colocando em desvantagem
- Dificuldade em aceitar elogios ou reconhecimento, desqualificando conquistas próprias
- Escolhas que contradizem seus valores — como gastar com o que não precisa enquanto economiza para uma viagem que deseja
Se você identificou três ou mais desses sinais, não se assuste. Identificar é o começo da mudança, não um diagnóstico. Cada pessoa vivencia esses padrões de forma única, e o importante é observá-los com curiosidade, não com julgamento.
Como a Gestalt-terapia compreende a autossabotagem
A Gestalt-terapia oferece uma leitura profunda e compassiva sobre por que repetimos padrões que nos prejudicam. Diferente de abordagens que focam apenas em "parar o comportamento", a Gestalt busca compreender a função que esse comportamento cumpre.
Ajustamentos criativos que se tornaram rígidos
Na visão da Gestalt, todo comportamento, mesmo os que parecem autodestrutivos, surgiu como a melhor resposta possível diante de uma situação difícil. Uma criança que aprendeu a "não se destacar" para evitar conflitos em casa desenvolveu um ajustamento criativo. O problema é quando esse ajustamento, criado para uma situação específica, se torna a única resposta disponível para todas as situações.
A autossabotagem, nessa perspectiva, não é defeito. É um ajustamento que ficou rígido, como usar um casaco de inverno no verão porque ele te protegeu em um frio intenso.
Negócios inacabados que se repetem
A Gestalt trabalha com o conceito de "negócios inacabados", experiências emocionais que não puderam ser completadas. Quando não conseguimos expressar uma raiva, elaborar uma perda ou dizer o que precisava ser dito, essas experiências ficam "em aberto" e tendem a se repetir em novos contextos.
A pessoa que se sabota diante de uma promoção pode estar repetindo uma situação antiga onde brilhar era perigoso. O cenário é novo, mas a reação é antiga.
Awareness: o caminho para interromper o ciclo
A awareness — a consciência plena de si mesmo no momento presente, é a principal ferramenta da Gestalt para trabalhar a autossabotagem. Não se trata de "se forçar a mudar", mas de perceber, com clareza e sem julgamento:
Ilustração: Fios emaranhados representando autossabotagem e clareza.
- O que estou sentindo agora, neste momento?
- O que acontece no meu corpo quando estou prestes a me sabotar?
- Que emoção estou tentando evitar?
- Essa reação pertence ao presente ou ao passado?
Quando a pessoa consegue trazer para a consciência o que antes operava no automático, novas possibilidades de resposta se abrem naturalmente.
O aqui-agora como campo de transformação
Na Gestalt, a mudança não acontece pelo esforço de vontade, mas pela consciência. Quando você se percebe, no aqui-agora, prestes a repetir um padrão antigo, já não é mais a mesma pessoa que agia sem perceber. Essa presença consigo mesmo é, em si, transformadora.
Caminhos práticos para lidar com a autossabotagem
Embora cada processo seja individual e os resultados variem de pessoa para pessoa, algumas práticas podem ajudar a construir uma relação diferente com seus padrões:
Observe sem julgar
O primeiro passo não é "parar de se sabotar", é perceber quando está fazendo isso. Sem crítica, sem pressa de mudar. Apenas observe: "Estou fazendo de novo. Interessante. O que está acontecendo comigo agora?"
Investigue a função do comportamento
Em vez de perguntar "por que eu faço isso?", tente "do que esse comportamento me protege?". A resposta pode surpreender. Muitas vezes, a autossabotagem protege de algo que parece mais assustador do que o fracasso em si.
Acolha as partes que resistem
As partes de você que sabotam não são inimigas. São partes que aprenderam a te proteger de uma forma que não funciona mais. Tratá-las com hostilidade só reforça o ciclo. Tratá-las com curiosidade abre espaço para a mudança.
Comece devagar e pequeno
Mudança sustentável raramente acontece de uma vez. Em vez de "nunca mais vou procrastinar", tente "hoje vou dedicar 15 minutos a esse projeto". Pequenos movimentos criam novos caminhos neurais e emocionais.
Identifique seus gatilhos
Preste atenção ao contexto: quando a sabotagem acontece? Em que momentos do dia, com quais pessoas, em que circunstâncias? Esse mapeamento, que pode ser feito em um diário simples, já é awareness em ação.
Busque apoio profissional quando o padrão persiste
Se você percebe que, mesmo com esforço genuíno, continua preso nos mesmos ciclos, isso não significa que você "não tem jeito". Significa que o padrão tem raízes mais profundas que se beneficiariam de um espaço terapêutico para serem exploradas com segurança.
O processo de autoconhecimento acompanhado por um profissional permite acessar camadas que, sozinhos, não conseguimos alcançar, não por incompetência, mas porque estamos imersos demais na própria história para enxergá-la com clareza.
A autossabotagem na perspectiva da Figura & Fundo
Na Figura & Fundo, entendemos que a autossabotagem não é algo a ser combatido, mas compreendido. Nosso trabalho com abordagem gestáltica busca criar um espaço onde:
- Você possa reconhecer seus padrões sem ser julgado por eles
- As funções desses comportamentos sejam exploradas com respeito
- Novos ajustamentos possam emergir naturalmente, sem pressão
- Sua autonomia e ritmo sejam respeitados em cada etapa
Trabalhamos com a convicção de que não há garantia de resultados específicos, cada pessoa responde de forma única ao processo psicoterapêutico. O que oferecemos é um espaço seguro, ético e profissional para essa exploração.
Conclusão
A autossabotagem é, paradoxalmente, uma tentativa de proteção que acaba nos ferindo. Compreender isso muda tudo: em vez de lutar contra si mesmo, você passa a se escutar. Em vez de se punir pelos padrões repetitivos, passa a investigá-los com curiosidade.
O caminho para parar de se sabotar não passa por mais disciplina ou força de vontade. Passa por mais consciência, mais gentileza consigo mesmo e, quando necessário, pelo apoio de um profissional que possa te ajudar a enxergar o que a repetição esconde.
Cada pessoa tem seu próprio ritmo nessa jornada. O que importa não é a velocidade, mas a direção: em vez de fugir de si, caminhar em direção a si.
Importante: Este artigo tem caráter informativo e educacional, não substitui consulta com profissional de saúde mental. Se você está em sofrimento, procure ajuda profissional. Em situações de emergência, ligue para o CVV (188) ou acesse o CAPS mais próximo.
Se você percebe que a autossabotagem tem limitado sua vida e sente que chegou o momento de explorar esses padrões, entre em contato. Vamos conversar sobre como a terapia pode te ajudar a construir uma relação mais leve consigo mesmo.
Referências
- Rozental, A. et al. (2018). Targeting Procrastination Using Psychological Treatments: A Systematic Review and Meta-Analysis. Frontiers in Psychology, 9, 1588. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6125391/
- Perls, F., Hefferline, R. & Goodman, P. (1951). Gestalt Therapy: Excitement and Growth in the Human Personality. New York: Julian Press.
- Yontef, G. M. (1993). Awareness, Dialogue, and Process. Highland, NY: Gestalt Journal Press.
Perguntas frequentes

Gabriel Guimarães Hass
Psicólogo Clínico - CRP Ativo
Especializado em Gestalt-terapia, oferece atendimento humanizado e personalizado para adultos e idosos.
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