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Saúde Mental
Artigo da Semana

Burnout em profissionais de saúde: quem cuida de quem cuida?

Entenda por que profissionais de saúde são especialmente vulneráveis ao burnout, reconheça os sinais e descubra caminhos de cuidado e prevenção.

Foto de Gabriel Guimarães Hass

Gabriel Guimarães Hass

Psicólogo Clínico - CRP Ativo

20 de abril de 2026
8 min
Capa: Burnout em profissionais de saúde: quem cuida de quem cuida?
Leitura: 8 min
Nível: Intermediário

Eles estão na linha de frente. Cuidam de quem sofre, acolhem quem está em crise, tomam decisões difíceis sob pressão e, muitas vezes, testemunham dor e perda como parte da rotina. Mas quando o dia acaba, se é que acaba, quem cuida da saúde mental de quem cuida?

O burnout em profissionais de saúde não é novidade, mas sua escala atingiu proporções alarmantes. Uma meta-análise publicada no Frontiers in Psychiatry estimou que a prevalência de burnout entre profissionais de saúde durante a pandemia de COVID-19 chegou a 52% (Batra et al., 2021). Mesmo antes da pandemia, os índices já eram preocupantes, e no período pós-pandêmico, muitos profissionais continuam carregando as marcas de anos de sobrecarga.

Se você é profissional de saúde e se reconhece nessa descrição, ou se alguém que você ama trabalha nessa área, este artigo é um convite a olhar com seriedade para um sofrimento que frequentemente é invisibilizado.

Por que profissionais de saúde são especialmente vulneráveis

O burnout pode afetar qualquer profissional, mas algumas características do trabalho em saúde criam um terreno particularmente fértil para o esgotamento:

A exposição contínua ao sofrimento alheio

Médicos, enfermeiros, psicólogos, fisioterapeutas e outros profissionais de saúde lidam diariamente com pessoas em situação de vulnerabilidade, dor física, sofrimento emocional, medo da morte. Essa exposição repetida pode gerar o que a literatura chama de fadiga por compaixão: o desgaste emocional progressivo que resulta de cuidar continuamente de pessoas que sofrem.

Uma revisão de escopo publicada no BMC Psychology identificou que os principais fatores de risco para fadiga por compaixão incluem alta carga de trabalho, longas jornadas e acesso limitado a suporte emocional (Peters, 2024). Diferente do estresse comum, a fadiga por compaixão atinge justamente a capacidade de se conectar com o outro, que é a ferramenta fundamental de quem trabalha em saúde.

A cultura do sacrifício

Na formação e na cultura profissional da saúde, existe uma narrativa poderosa: a de que o bom profissional é aquele que se sacrifica. Que coloca o paciente sempre em primeiro lugar, mesmo que isso signifique negligenciar as próprias necessidades. Que demonstrar cansaço é sinal de fraqueza.

Essa narrativa cria um ciclo perigoso: o profissional trabalha até o limite, sente culpa por estar cansado e trabalha mais para compensar. O resultado, para muitos, é o esgotamento completo, físico, emocional e vocacional.

Condições estruturais adversas

Além dos fatores emocionais, as condições objetivas de trabalho em muitas instituições de saúde são adoecedoras:

  • Jornadas de 12 a 24 horas com descanso insuficiente
  • Equipes reduzidas atendendo demandas crescentes
  • Infraestrutura precária e falta de recursos
  • Baixa remuneração em relação à responsabilidade
  • Exposição a riscos biológicos e situações de violência
  • Falta de espaços de escuta e suporte psicológico institucional

Uma meta-análise global com 109 estudos identificou que bullying no local de trabalho, estresse ocupacional e comunicação deficiente são fatores de risco consistentes para burnout em profissionais de saúde (De Hert, 2020).

Como o burnout se manifesta em profissionais de saúde

Os sinais de burnout em profissionais de saúde podem incluir todas as manifestações clássicas da síndrome, exaustão, despersonalização e redução da realização profissional, mas com nuances específicas do contexto:

Os sinais mais comuns incluem:

  • Exaustão que não responde ao descanso: mesmo após folgas, a sensação de cansaço profundo permanece
  • Distanciamento emocional dos pacientes: o profissional começa a tratar pacientes de forma mecânica, sem conexão, um mecanismo de proteção contra mais dor
  • Cinismo e desesperança: frases como "não adianta", "nada muda" ou "o sistema é assim mesmo" se tornam frequentes
  • Erros e dificuldade de concentração: a exaustão cognitiva afeta a atenção e a tomada de decisões, em contextos de saúde, isso pode ter consequências graves
  • Culpa crônica: sentir que deveria estar fazendo mais, mesmo quando já está no limite
  • Perda do sentido vocacional: o trabalho que antes era fonte de propósito passa a ser apenas fonte de sofrimento
  • Uso de substâncias: aumento do consumo de álcool, ansiolíticos ou outras substâncias para lidar com o estresse

O paradoxo de quem cuida

Existe um paradoxo particularmente cruel no burnout de profissionais de saúde: as mesmas competências que tornam a pessoa boa no que faz, empatia, dedicação, responsabilidade, sensibilidade ao sofrimento alheio, são as que a tornam mais vulnerável ao esgotamento.

O profissional que mais se importa é frequentemente o que mais sofre. E a cultura institucional raramente oferece espaço para que esse sofrimento seja reconhecido e acolhido. Pedir ajuda pode ser visto como incompetência. Admitir cansaço pode ser interpretado como falta de vocação.

Essa dinâmica precisa ser nomeada pelo que é: injusta. Nenhum profissional deveria ter que escolher entre cuidar dos outros e cuidar de si mesmo.

Caminhos de cuidado e prevenção

A prevenção do burnout em profissionais de saúde exige mudanças em múltiplos níveis, individual, institucional e sistêmico.

No nível individual

  • Reconhecer os sinais sem culpa: admitir o esgotamento não é fraqueza, é autocuidado
  • Buscar acompanhamento psicológico: profissionais de saúde frequentemente cuidam de todos, menos de si mesmos
  • Manter atividades restauradoras fora do contexto de trabalho
  • Estabelecer limites com as demandas institucionais sempre que possível
  • Participar de grupos de suporte entre pares: compartilhar experiências com quem entende a realidade do trabalho

No nível institucional

  • Implementar programas de saúde mental para os profissionais
  • Garantir jornadas de trabalho compatíveis com a recuperação
  • Criar espaços seguros de escuta sem julgamento
  • Reconhecer que cuidar de quem cuida é investimento, não gasto

Como a Gestalt-terapia aborda o esgotamento em profissionais de saúde

A Gestalt-terapia oferece um espaço particularmente relevante para profissionais de saúde porque trabalha justamente com aquilo que o burnout destrói: o contato consigo mesmo, com o outro e com o sentido do que se faz.

Para quem passou anos cuidando dos outros, a psicoterapia pode ser o primeiro espaço genuíno de cuidado para si. O trabalho psicoterapêutico na abordagem gestáltica foca em:

  • Restaurar a awareness (consciência plena): perceber os sinais do corpo e das emoções que foram sistematicamente ignorados em nome do trabalho
  • Trabalhar a culpa e o perfeccionismo: explorar as introjeções, crenças incorporadas como "um bom profissional não reclama" ou "eu deveria dar conta", e questionar se elas ainda servem
  • Acolher os "negócios inacabados" (experiências incompletas): elaborar situações difíceis, perdas, fracassos percebidos, momentos de impotência, que ficaram sem processamento emocional
  • Redescobrir o sentido vocacional: reconectar-se com o que originalmente motivou a escolha pela saúde, diferenciando o que é vocação genuína do que é autoexigência destrutiva

Como aponta Yontef (1993), o processo psicoterapêutico na Gestalt busca ampliar a consciência para que a pessoa possa fazer escolhas mais alinhadas com suas necessidades reais, e para profissionais de saúde, essa ampliação frequentemente significa dar-se permissão para receber cuidado, não apenas oferecê-lo.

Psicoterapia online na Figura & Fundo

Na Figura & Fundo, compreendemos as demandas únicas de quem trabalha em saúde. Nosso atendimento online permite acessar a psicoterapia sem depender de deslocamentos após plantões exaustivos, e com a flexibilidade de horário que a rotina de saúde exige.

Trabalhamos com valores fixos e transparentes. Se a psicoterapia particular não é acessível no momento, existem alternativas gratuitas: CAPS, UBS com atendimento psicológico e clínicas-escola de universidades. O CVV (188) também oferece apoio emocional 24 horas.

Quem cuida também merece cuidado

Se você é profissional de saúde e chegou até aqui, talvez reconheça em si mesmo alguns dos sinais descritos. Talvez tenha sentido aquele aperto de quem sabe que algo precisa mudar, mas não sabe por onde começar.

O primeiro passo é este: reconhecer que seu sofrimento é real, legítimo e merece atenção. Você não precisa estar em colapso para buscar ajuda. E cuidar de si não é egoísmo, é o que permite que você continue cuidando dos outros de forma sustentável.

Se você sente que chegou o momento, entre em contato com a equipe da Figura & Fundo. Vamos conversar.

Perguntas frequentes

Por que profissionais de saúde têm mais burnout? Exposição contínua ao sofrimento alheio, cultura do sacrifício, jornadas longas, equipes reduzidas e falta de espaço institucional para cuidar de quem cuida criam um terreno fértil para o esgotamento.

Fadiga por compaixão é burnout? São conceitos relacionados mas distintos. A fadiga por compaixão é o desgaste de cuidar continuamente de pessoas que sofrem. Pode ser um componente do burnout, mas tem dinâmica própria.

Profissional de saúde admitir cansaço é fraqueza? Não. As mesmas competências que tornam o profissional bom no que faz, empatia, dedicação, responsabilidade, são as que o tornam mais vulnerável. Admitir o cansaço é autocuidado, não incompetência.

Referências

  • Batra, K. et al. (2021). Investigating the Psychological Impact of COVID-19 among Healthcare Workers: A Meta-Analysis. International Journal of Environmental Research and Public Health, 18(23), 12471. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34858231/
  • De Hert, S. (2020). Burnout in Healthcare Workers: Prevalence, Impact and Preventative Strategies. Local and Regional Anesthesia, 13, 171-183. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33149664/
  • Peters, E. (2024). Compassion fatigue in helping professions: a scoping literature review. BMC Psychology, 12, 158. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11980338/
  • World Health Organization. (2022). World Mental Health Report: Transforming Mental Health for All. Geneva: WHO. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240049338
  • Yontef, G. M. (1993). Awareness, Dialogue, and Process: Essays on Gestalt Therapy. Highland, NY: Gestalt Journal Press.

Este artigo tem caráter informativo e educacional. As informações apresentadas não substituem avaliação profissional individualizada. Se você apresenta sintomas descritos, procure um psicólogo ou psiquiatra para avaliação adequada.

Última atualização:20 de abril de 2026
Foto de Gabriel Guimarães Hass

Gabriel Guimarães Hass

Psicólogo Clínico - CRP Ativo

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