Quando ideias erradas afastam você de algo que poderia ajudar
Talvez você já tenha pesquisado sobre terapia, encontrado o nome "Gestalt-terapia" e pensado algo como: "isso parece muito alternativo para mim" ou "deve ser aquela técnica da cadeira vazia que vi em algum filme". Se foi assim, você não está sozinho. Muitas pessoas adiam ou descartam uma abordagem que poderia fazer muito sentido para elas por causa de ideias equivocadas que circulam por aí.
Mitos sobre saúde mental têm um custo real. Eles não são apenas informações erradas: são barreiras invisíveis que adiam decisões importantes. Quando alguém deixa de buscar ajuda porque acredita que determinada terapia "não é séria" ou "não funciona para o meu problema", quem perde é a pessoa que segue convivendo com um sofrimento que poderia ser cuidado.
Este artigo desmonta, um a um, os 5 mitos sobre Gestalt-terapia mais comuns, aqueles que aparecem em conversas, redes sociais e até em pesquisas no Google. A proposta é simples: apresentar o que essa abordagem realmente é, para que você possa decidir com informação de qualidade, e não com base em boatos.
Antes dos mitos: o que é Gestalt-terapia, em poucas palavras
Para desmontar um mito, primeiro é preciso ter clareza sobre o que está sendo distorcido. A Gestalt-terapia é uma abordagem de psicoterapia criada na década de 1950 por Fritz Perls, Laura Perls, Paul Goodman, Isadore From, Paul Weisz, Sylvester Eastman e Elliot Shapiro, com base em um livro fundador publicado em 1951 (Perls, Hefferline & Goodman, 1951).
De forma bem resumida, a Gestalt-terapia trabalha com três pilares centrais:
- Awareness (consciência plena): ampliar a percepção sobre o que você sente, pensa e faz, muitas vezes no piloto automático.
- Aqui-agora (momento presente): entender como suas questões aparecem na sua vida hoje, e não apenas investigar o passado.
- Contato (relação genuína): a qualidade do encontro entre você e o mundo, incluindo a relação com o próprio psicoterapeuta, que é parte viva do processo.
Se você quiser um mergulho completo nesses conceitos, o nosso guia introdutório explica cada um deles com calma. Por ora, esse resumo já é suficiente para percebermos por que os mitos a seguir não se sustentam.
Mito 1: "Gestalt-terapia é a mesma coisa que psicologia da Gestalt"
Esse é, provavelmente, o mal-entendido mais frequente, e ele tem uma explicação histórica. A psicologia da Gestalt é uma escola alemã do início do século XX que estudava a percepção: como o cérebro organiza formas, figuras e fundos. É dela que vêm aquelas imagens famosas em que você vê ora um vaso, ora dois rostos.
A Gestalt-terapia, por sua vez, é uma abordagem clínica da psicoterapia. Ela se inspirou em algumas ideias da psicologia da percepção, como a noção de que percebemos o mundo em totalidades, e não em pedaços isolados, mas foi muito além, integrando influências da fenomenologia (o estudo da experiência tal como ela é vivida), do existencialismo e de outras tradições (Ribeiro, 2006).
Na prática, o que isso significa para você? Que a Gestalt-terapia não é um estudo sobre ilusões de ótica, e sim um processo terapêutico completo, voltado para questões reais da vida: ansiedade, relacionamentos, lutos, transições, autoconhecimento. O nome é parecido, a proposta é outra.
Mito 2: "Gestalt-terapia não tem base científica"
Esse mito costuma nascer de uma comparação apressada: como algumas abordagens produzem mais pesquisas quantitativas do que outras, criou-se a impressão de que só elas "funcionam". A realidade é mais matizada.
Primeiro, a Gestalt-terapia tem fundamentação teórica sólida e sistematizada há mais de setenta anos, desde a obra fundadora de Perls, Hefferline e Goodman (1951) até autores contemporâneos que organizaram sua prática clínica com rigor, como Gary Yontef (1993) e, no Brasil, Jorge Ponciano Ribeiro (2006).
Segundo, a pesquisa em psicoterapia como um todo indica que diferentes abordagens estruturadas produzem resultados significativos, e que fatores como a qualidade do vínculo terapêutico são determinantes importantes de bons resultados, independentemente da linha teórica. Estudos de grande escala, como a meta-análise de Cuijpers et al. (2019) sobre psicoterapia para depressão, reforçam que a psicoterapia conduzida por profissionais qualificados é um tratamento eficaz.
Terceiro, vale lembrar: no Brasil, a Gestalt-terapia é uma abordagem reconhecida e praticada por psicólogos com registro profissional (CRP), dentro das normas éticas do Conselho Federal de Psicologia. Não se trata de uma prática alternativa sem regulação, é psicologia clínica, exercida por profissionais formados e fiscalizados.
Isso não significa prometer milagres. Cada pessoa responde de forma única ao processo terapêutico, e não há garantias de resultados específicos em nenhuma abordagem, quem promete isso, aliás, merece desconfiança.
Mito 3: "Gestalt-terapia é só a técnica da cadeira vazia"
A cadeira vazia é, de fato, a técnica mais famosa da Gestalt-terapia, aquela em que a pessoa dialoga com alguém (ou com uma parte de si mesma) imaginada em uma cadeira à sua frente. Ela é poderosa e, justamente por ser visualmente marcante, virou quase um símbolo da abordagem em filmes e vídeos.
Mas reduzir a Gestalt-terapia à cadeira vazia é como reduzir a culinária a uma única receita. A técnica é apenas um dos muitos recursos possíveis, e boa parte das sessões de Gestalt-terapia se parece com aquilo que você imagina de uma sessão de terapia: uma conversa profunda, atenta e sem julgamentos.
O que caracteriza a abordagem não é uma técnica específica, mas a atitude do terapeuta: presença genuína, curiosidade pela sua experiência e atenção ao que acontece no momento presente. Como propôs Joseph Zinker (1977), a Gestalt-terapia é antes de tudo um processo criativo, os experimentos surgem do encontro entre terapeuta e paciente, ajustados à necessidade de cada pessoa, e nunca aplicados como fórmula pronta.
Se a ideia de "técnicas teatrais" te intimida, aqui vai um alívio: nada em Gestalt-terapia é imposto. Todo experimento é um convite, que você pode aceitar ou recusar. Sua autonomia faz parte do método.
Mito 4: "Gestalt não serve para problemas sérios, como ansiedade e depressão"
Existe uma percepção equivocada de que a Gestalt-terapia serviria apenas para "autoconhecimento leve", enquanto questões como ansiedade e depressão exigiriam outras abordagens. Esse mito ignora como a Gestalt-terapia compreende e trabalha o sofrimento.
Na perspectiva gestáltica, a ansiedade, por exemplo, é entendida como um desequilíbrio na relação entre a pessoa e seu ambiente, quando alguém perde contato com o presente e passa a viver antecipando o futuro. O trabalho terapêutico foca em ampliar a awareness (consciência plena) sobre como e quando essa ansiedade se manifesta, permitindo construir, aos poucos, novas formas de responder a ela.
Com a depressão, o processo envolve reconhecer necessidades que foram silenciadas, sentimentos interrompidos e formas de contato que se fecharam, o que a Gestalt chama de "negócios inacabados" (sentimentos por terminar). É um trabalho profundo, gradual e respeitoso com o ritmo de cada pessoa.
Dois pontos de honestidade importam aqui:
- Casos moderados e graves podem exigir cuidado combinado. Em muitos quadros, o acompanhamento psiquiátrico e o uso de medicação, junto com a psicoterapia, formam o melhor caminho. Um bom gestalt-terapeuta reconhece isso e trabalha em rede com outros profissionais.
- Nenhuma abordagem é bala de prata. A escolha da terapia envolve também a sua identificação com o método e com o profissional, e isso só se descobre experimentando.
Mito 5: "Na Gestalt-terapia, o terapeuta não diz nada e a terapia não tem direção"
Algumas pessoas chegam com o receio oposto ao do mito anterior: acham que, por não seguir protocolos rígidos com tarefas e etapas pré-definidas, a Gestalt-terapia seria um processo solto, em que o terapeuta apenas escuta em silêncio e nada avança.
A realidade é diferente. O gestalt-terapeuta é um profissional ativo e presente. Ele observa, pergunta, compartilha percepções, propõe experimentos e, principalmente, participa do encontro como pessoa real, não como uma figura neutra e distante. Yontef (1993) descreve essa postura como um diálogo genuíno: o terapeuta não conduz você para onde ele quer, mas caminha junto, trazendo à tona o que muitas vezes você não consegue ver sozinho.
E há, sim, direção. A direção da Gestalt-terapia é o aumento progressivo da sua consciência sobre si mesmo e sobre suas formas de estar no mundo, porque é dessa consciência que nascem as mudanças duradouras. O que não há é um roteiro engessado que ignora quem você é. Para quem já se sentiu "mais um número" em atendimentos padronizados, essa flexibilidade costuma ser justamente o que faltava.
O que esperar de um processo real de Gestalt-terapia
Desfeitos os mitos, fica a pergunta prática: como é, afinal, fazer Gestalt-terapia? Embora cada processo seja único, alguns elementos costumam estar presentes:
- Conversas profundas e sem julgamento: o terapeuta acolhe sua experiência como ela é, sem enquadrá-la em rótulos apressados.
- Atenção ao presente: mais do que apenas revisitar o passado, vocês exploram como suas questões aparecem na sua vida hoje, inclusive na própria sessão.
- Convites à experimentação: em alguns momentos, o terapeuta pode propor experimentos (como perceber uma sensação corporal ou ensaiar uma conversa difícil), sempre com seu consentimento.
- Ritmo respeitado: não há pressa artificial nem prolongamento desnecessário. O processo acompanha o seu tempo.
Vale lembrar que a Gestalt-terapia funciona tanto no formato presencial quanto no online. Pesquisas como a meta-análise de Carlbring et al. (2018), publicada na World Psychiatry, indicam que a psicoterapia por videoconferência apresenta resultados equivalentes ao atendimento presencial para a maioria das questões. Se quiser entender melhor esse formato, veja nosso guia sobre como funciona a psicoterapia online.
Psicoterapia online na Figura & Fundo
Na Figura & Fundo, a Gestalt-terapia não é apenas uma técnica que aplicamos, é a lente que orienta todo o nosso trabalho clínico. Nossos psicólogos atendem online, com registro profissional ativo e dentro das normas da Resolução CFP nº 11/2018, que regulamenta o atendimento psicológico por meio de tecnologias digitais.
Nosso compromisso se traduz em práticas concretas:
- Valores fixos e transparentes, porque sua autonomia é inegociável.
- Sem amarras financeiras: você tem liberdade para avaliar a continuidade do processo a cada momento.
- Ética e sigilo em todas as etapas, do primeiro contato ao encerramento.
Se o investimento em psicoterapia particular está além das suas possibilidades no momento, existem recursos públicos importantes: CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), UBS com atendimento psicológico e clínicas-escola de universidades, que oferecem atendimento gratuito ou a valores sociais.
Menos mitos, mais experiência
Os 5 mitos sobre Gestalt-terapia que desmontamos aqui têm algo em comum: todos nascem de informações parciais que, repetidas, viram "verdades". A Gestalt-terapia não é psicologia da percepção, não é prática sem fundamento, não se resume à cadeira vazia, não se limita a questões leves e não é um processo sem direção.
O que ela é, de fato, só se descobre por inteiro na experiência: um encontro terapêutico que valoriza sua consciência, seu presente e sua capacidade de mudança. Nenhum artigo, nem mesmo este, substitui a vivência de uma primeira conversa com um profissional.
Se a curiosidade venceu os mitos, talvez seja um bom momento para conhecer como é uma primeira consulta online e tirar suas próprias conclusões.
Referências
- Perls, F., Hefferline, R., & Goodman, P. (1951). Gestalt Therapy: Excitement and Growth in the Human Personality. New York: Julian Press.
- Yontef, G. M. (1993). Awareness, Dialogue, and Process: Essays on Gestalt Therapy. Highland, NY: Gestalt Journal Press.
- Ribeiro, J. P. (2006). Vade-mécum de Gestalt-terapia: conceitos básicos. São Paulo: Summus.
- Zinker, J. (1977). Creative Process in Gestalt Therapy. New York: Brunner/Mazel.
- Cuijpers, P. et al. (2019). Psychotherapy for depression: A meta-analysis of comparative outcome studies. Journal of Affective Disorders, 243, 455-468. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.jad.2018.09.036
- Carlbring, P. et al. (2018). Internet-based vs. face-to-face cognitive behavior therapy for psychiatric and somatic disorders: a systematic review and meta-analysis. World Psychiatry, 17(2), 178-193. Disponível em: https://doi.org/10.1002/wps.20610
- Conselho Federal de Psicologia. (2018). Resolução CFP nº 11/2018 — Regulamenta a prestação de serviços psicológicos por meio de tecnologias da informação e comunicação.
Este artigo tem caráter informativo e educacional. As informações apresentadas não substituem avaliação profissional individualizada. Se você apresenta sintomas descritos, procure um psicólogo ou psiquiatra para avaliação adequada.
Pronto para conhecer a Gestalt-terapia além dos mitos? Entre em contato com a Figura & Fundo e vamos conversar sobre como esse caminho pode fazer sentido para você.
Perguntas Frequentes
Os mitos sobre Gestalt-terapia têm algum fundo de verdade?
Em geral, os mitos nascem de fragmentos reais que foram distorcidos. A cadeira vazia existe, mas não resume a abordagem; o nome vem da psicologia da Gestalt, mas a proposta clínica é outra. Conhecer a origem de cada mito ajuda a separar o fato da caricatura.
Gestalt-terapia funciona para ansiedade e depressão?
Sim, a Gestalt-terapia é utilizada no cuidado de pessoas com ansiedade, depressão e diversas outras questões emocionais. Em quadros moderados ou graves, o melhor caminho pode incluir acompanhamento psiquiátrico combinado. Cada pessoa responde de forma única, e não há garantias de resultados específicos em nenhuma abordagem.
Preciso aceitar fazer a técnica da cadeira vazia se fizer Gestalt-terapia?
Não. Nenhum experimento é obrigatório em Gestalt-terapia. As propostas do terapeuta são sempre convites, que você pode aceitar ou recusar sem prejuízo ao processo. Muitos acompanhamentos acontecem inteiramente por meio do diálogo.
Como sei se a Gestalt-terapia é a abordagem certa para mim?
A forma mais confiável de descobrir é experimentar algumas sessões e perceber como você se sente no processo. Pesquisas indicam que a qualidade do vínculo com o terapeuta é um dos fatores mais importantes para bons resultados. Se houver identificação com a proposta e com o profissional, é um bom sinal.
Gestalt-terapia online funciona tão bem quanto presencial?
Para a maioria das questões, sim. Meta-análises como a de Carlbring et al. (2018) indicam resultados equivalentes entre os formatos online e presencial. O essencial é que o atendimento seja conduzido por um psicólogo registrado, em ambiente com privacidade e conexão estável.

Gabriel Hass
Psicólogo Clínico - CRP 01/26372
Especializado em Gestalt-terapia, oferece atendimento humanizado e personalizado para adultos e idosos.
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